Biografia do Pintaca - Livro em 66 Capítulos
Na esquina das ruas Marciliano e Expedicionários, via-se o prédio do saudoso médico das crianças, Doutor Simeão Ribas. Ele usava o método da homeopatia, eu mesmo fui paciente dele. Sabia-se que nunca, jamais, havia falecido uma criança em suas mãos. Na Rua Marciliano, havia os mercadores de frutas; João Garros comprava para a Cica de Jundiaí e Otávio Cerrutti comprava para a União. Viam-se carros de bois lotados de laranjas, abacaxis e bananas vindos das grandes chácaras e sítios, lotando a Marciliano em toda a sua extensão, esperando a hora para descarregar a mercadoria. O dinheiro corria solto pelas mãos dos agricultores, felizes com os resultados.
No bairro da Santa Cruz existia o armazém de João Davoli e sua esposa Elvira. Em junho, todos aguardavam as festas dos três santos e as famílias compareciam ao armazém, vindas de todos os cantos da cidade. Havia a reza e a subida do mastro em homenagem aos Santos Antônio, Pedro e João. As pessoas podiam andar pelo armazém e pela casa para saborear as guloseimas e ninguém furtava ou mexia em nada. Os mais freqüentes à festa eram as honradíssimas famílias dos Mantovanis, Guarnieris, Mazons e Albanos.
No bairro do Mirante, lembro-me da família do velho Teruel, dos Salvattos, dos Dias e dos Estanislaus. Ainda reside ali José Teruel, que conseguiu presentear com uma casa cada filho que tivesse contraído núpcias. Seus filhos retribuíram com vigorosos netos. Troca justíssima e das mais felizes. No fim da Rua do Mirante existia a chácara do velho Salvatto. Também era a única saída para Itapira. Dali chegava-se ao Morro do Gravi, palco de grandes combates na Revolução de 32. É local de terra vermelha, uma barreira dos infernos quando chovia, dificultando as viagens para Itapira e Sul de Minas.
O carnaval era motivo de orgulho e preocupação aos tucurenses. Em 1930 e pouco, havia um salão na Rua do Tucura, onde se realizavam os bailes carnavalescos. O local não acomodava duzentas pessoas, o que levou os tucurenses a pensarem em ampliá-lo ou alugar outro, um pouco maior. De sábado a terça-feira, o salão lotava. O mulato Chico Batata notou que era necessário criar inovações para o Carnaval: reuniu garotos e garotas, emprestou uns tambores e pandeiros, treinou as músicas de sucesso da época e fundou o primeiro bloco carnavalesco mogimiriano “Os Zuaves do Tucura”. “Zuavo” significa soldado da Argélia. Bem, disso eu sei hoje, na época, ninguém sabia era nada vezes nada, nem precisava. O mais importante era fazer sucesso nas ruas.
Em Mogi Mirim de outros tempos não havia ônibus de passageiros, apenas os trens da Mogiana. O pior disso era a fumaça com brasa da máquina, que adentrava pelas janelas das cabines, chamuscando os ternos e os vestidos dos passageiros. Bem que o guarda avisava: “Cuidado com as brasas”. Os passageiros não se acautelavam, abriam as janelas para ver a paisagem, respirar o ar puro do campo e ouvir o coaxar dos sapos. Perto da estação era um brejo só, havia muitos sapos e o barulho ensurdecedor instigava os passageiros. Daí o time do Mogi Mirim Esporte Clube ser conhecido como o “Sapão da Mogiana”. A maior indústria da cidade era a Cervejaria Mogiana, que empregava muitos empregados, inclusive crianças e senhoras, e também propiciava empregos indiretos para pedreiros, serventes e pintores. Quando um cidadão tornava-se empregado da Cervejaria Mogiana era como se tivesse ganhado na loteria.