A Rua Chico Venâncio comportava a fábrica de balas e xaropes do alemão Estanislau Krol, pai de meu amigo Erwin e de duas meninas, uma delas, a Professora Norma Krol, grande oradora e mestra. Estanislau foi o primeiro a instalar na cidade um aparelho receptor de rádio, de onde puxou um alto-falante na porta, para que todos pudessem ouvir as transmissões dos jogos de futebol. Dezenas de pessoas se acotovelavam diante da casa de Krol. Com o tempo, outros adquiriram o aparelho de rádio receptor, o que me deu uma idéia: fundar uma emissora de rádio em Mogi Mirim. E fiz isso em 1950, mas vou lhes contar mais adiante.
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Voltando no tempo... meus pais tinham uma venda na esquina das Ruas João Teodoro com Joaquim Firmino, pertinho da Vila São Vicente, que chamávamos Vila dos Pobres. Dois quarteirões para frente havia a casa das prostitutas e todas elas faziam compras no nosso armazém. Elas vinham adquirir lenha rachada, comida e outros produtos; eu estava incumbido de levar as compras para a casa delas em um carrinho de mão. Era bem mocinho ainda e aquelas mulheres eram feras que me provocavam e se divertiam com a minha perturbação. Minha mãe percebia tudo, pois eu voltava à venda vermelho igual pimentão. A cada entrega de lenha e produtos, novo ritual de sedução. Uma delas, a mais saliente, mineira de Jacutinga, me propunha aquela velha conversinha para que fosse ao quarto dela, que queria me contar uma história. Eu não me interessava e consegui me manter intacto até os dezoito anos. InvencÃvel. O tempo foi passando e, certa noite, tive que esperar meu pai fechar ao armazém à s 21 horas para irmos juntos pra casa. Então, fui dar uma volta pelos lados da Rua Paissandu. Era cedo ainda. Quando dei por mim, já passava das tantas, estava atrasado para encontrar meu pai, mas a venda já estava fechada. Então, fui para casa e dormi como um anjo, deslumbrado com as delÃcias do amor, completamente vencido. InesquecÃvel.
1940 - Armazém da Vitalina e João Bronzatto.
Ao balcão, Ulisses Bronzatto, o irmão mais novo de Pintaca.