No bairro do Mirante, lembro-me da família do velho Teruel, dos Salvattos, dos Dias e dos Estanislaus. Ainda reside ali José Teruel, que conseguiu presentear com uma casa cada filho que tivesse contraído núpcias. Seus filhos retribuíram com vigorosos netos. Troca justíssima e das mais felizes. No fim da Rua do Mirante existia a chácara do velho Salvatto. Também era a única saída para Itapira. Dali chegava-se ao Morro do Gravi, palco de grandes combates na Revolução de 32. É local de terra vermelha, uma barreira dos infernos quando chovia, dificultando as viagens para Itapira e Sul de Minas.
No bairro do Tucura, lembro-me das famílias dos Veados, do Chico Batata e de Diomira Parente, esta a “delegada” do bairro, na verdade, a “inspetora de quarteirão”. Essa mulher prendia todo mundo e levava os safados a pé para a Cadeia, não usava armas, apenas um porretinho na mão direita. Enquanto ela acompanhava o meliante à Cadeia, o esposo tomava conta do bar, na Rua do Tucura. O apelido da família dos Veados era porque tanto o pai como os filhos tomavam parte das corridas de pedestres do tipo da São Silvestre, aqui na cidade e também na região, das quais se saíam vencedores, na maioria das vezes. Eram ágeis, lépidos, ligeiros. Como os veados. Na Rua do Comércio, atual José Bonifácio, havia a venda do português Antônio Gonçalves, o açougue de Angelim Róttoli, outro açougue do (Bode) Garcia, a mansão dos Sertórios, a enorme casa do Gama e Silva, em cujos terreiros realizavam-se inesquecíveis festas juninas. Foi dali que tivemos, anos após, um ilustre Ministro da República, que participou de grande festa em sua homenagem no Clube Recreativo. Lembro-me de ter feito a transmissão dos discursos e de detalhes da festa. Uma comissão de mogimirianos entregou ao Ministro um rol de reivindicações em algumas folhas datilografadas, relativamente à vinda de uma faculdade para a cidade. O Ministro as leu ao microfone, prometendo atender as necessidades do município e recebeu muitos aplausos. Finda a festa, quando os garçons e funcionários do Clube faziam a limpeza, encontraram sob a cadeira que fora ocupada pelo Ministro um rolo de papel amassado, esquecido. Eu estava recolhendo e enrolando os fios dos transmissores e vieram até mim com o maço de papéis. Abri, vi que eram as reivindicações da faculdade, junto com o discurso proferido pelo ilustre homem. Indignado, pedi que fossem entregues a um membro daquela comissão de cidadãos que organizou o rol. O membro da comissão tomou ciência do caso e mandou que fossem queimados todos os papéis, julgando que poderia ser preso, caso divulgasse que havia descoberto a falsa atitude solícita do Ministro. Isso qualificaria o descaso dele com a petição dos mogimirianos. Ficou o dito pelo não-dito, pelos séculos e séculos, amém. A coluna apresenta fotos da década de 50, Senhorinha Magali Peralta Barreto foi eleita Rainha da Cidade e recebeu o título do Deputado Nagib Chaib, durante o baile no Clube Recreativo de Mogi Mirim.