Biografia do Pintaca - Livro em 66 Capítulos
Eu me sentia muito feliz com minha nova família, residindo em Conchal. As chateações de início foram se esvaindo, aquele bom (e moralista) povo foi se acostumando à ideia de um casal morar junto sem ter recebido as bênçãos religiosas, embora mantivéssemos uma estreita relação com o Padre Alberto Velloni, pároco local, o que tornava tudo ainda mais estranho e confuso, aos olhos dos outros. Amávamo-nos muito, eu e Odete, apenas isso.
Eu e minha família estávamos residindo em Mogi Mirim desde 1976. Tudo estava tranquilo e, devagar, meus filhos do primeiro casamento – Antônio Carlos, Paulo César e Regina Lúcia - foram se aproximando. Paulo foi o primeiro que eu trouxe para casa, num domingo, após o jogo do Mogi Mirim Esporte Clube. Rosana se identificou com ele e se tornaram bons amigos. Regina é amiga de Odete, frequentemente se hospeda lá em casa e sinto imenso prazer em recebê-la. Toninho, meu primogênito, não tardará a voltar para vir me ver. Apresento os meus cinco amados filhos.
Um fato inesperado ocorreu: um belo dia, estava no Cine São José, quando me apareceu um homem, de uns trinta e poucos anos, dizendo ser meu filho. “Como assim?!” - fiquei desconcertado. Dona Gercina, funcionária do cinema, presenciou a conversa e abriu a porta para que ele viesse me ver, ao final da sessão de cinema.
Eu estava no paraíso com toda a família, meus filhos eram unidos e minha amantíssima esposa me acompanhava em todos os eventos. Mas veio o baque: anunciaram que eu não mais seria o gerente do Cine São José. A Associação Mogimiriana de Beneficência resolveu, nesta moderna linguagem corporativa - otimizar as atividades e agregar parcerias - e firmou contrato com duas casas comerciais e outra empresa de cinema, a qual não me chamou para gerenciar. Assim, o prédio da Praça Rui Barbosa seria totalmente arrendado e o acervo da biblioteca “Pedro Paulo Januzzi”, que funcionava no andar superior do cinema, seria transferido para um prédio do Estado, na rua Caiapó, reformado pela Champion Papel e Celulose (hoje International Paper), que abrigaria também a biblioteca pública “Guilherme de Almeida”. Eu fiquei de fora.
Estou dobrando o Cabo da Boa Esperança. Daqui para frente, viver é lucro. Saio de casa todas as manhãs para ler o jornal no banco da Praça Rui Barbosa e rever meus amigos. Mogi Mirim é minha eterna paixão. Em 1939, quando tinha apenas vinte anos, a convite de Paulo Januzzi, então Presidente da Societá Italiana de Mutuo Soccorso di Mogy-Mirim, fui aceito como sócio naquela entidade que, por intervenção do governo federal, passou a chamar-se Associação Mogimiriana de Beneficência. Lá atuei como Secretário por muitos anos, acumulando funções de programador e gerente do Cinema São José, o qual, mais tarde, foi arrendado para duas casas comerciais, uma delas muito poderosa, cujas araras e prateleiras preenchem o grande espaço por onde já atuaram Randolph Scott, Sophia Loren, Gina Lollobrigida, John Waine e outros hollyoodianos de classe, glamour e qualidade. Não sou mais o gerente do Cine, mas continuo como membro da Associação Mogimiriana de Beneficência.