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Capítulo 60 – Quatro passagens para Mogi Mirim

Eu me sentia muito feliz com minha nova família, residindo em Conchal.  As chateações de início foram se esvaindo, aquele bom (e moralista) povo foi se acostumando à ideia de um casal morar junto sem ter recebido as bênçãos religiosas, embora mantivéssemos uma estreita relação com o Padre Alberto Velloni, pároco local, o que tornava tudo ainda mais estranho e confuso, aos olhos dos outros. Amávamo-nos muito, eu e Odete, apenas isso.

 

Eu continuava viajando pelo circuito regional, para executar o trabalho nas clínicas de repouso Santa Fé e Cristália e no Jornal Cidade de Itapira, na Rádio Cultura de Mogi Mirim e no Cine Paratodos de Conchal. Vivíamos com conforto e dignidade e nada nos faltava. Às quartas-feiras, ia a São Paulo para fechar contratos com os estúdios da Warner Bros e Metro-Goldwyn-Mayer e agendava cópias dos filmes de sucesso para exibir no Cine Paratodos, de Conchal, e no Cine São José, de Mogi Mirim, do qual eu era o programador. Trazia da capital, todas as semanas, a revista de variedades e fotonovelas chamada “Grande Hotel” para a minha mulher e um gibi do Walt Disney para minha filha, que, ansiosa, me aguardava na calçada e corria para comigo se encontrar, ao me ver chegando com as malas de filmes. Que boa lembrança! Odete era exímia costureira; Rosana Júlia, estudiosa e voltada à literatura. Nas festas de escola, declamava com facilidade os longos poemas que lhe confiava a Diretora Luzia Carlini Gelly, ensinando-lhe as técnicas de memorização e ensaiando a apresentação. Nove anos mais tarde, em 24 de agosto, nasceu Graziete, minha caçula, que recebeu o nome da avó paterna, Vitalina. Em 1973, o Cine Paratodos teve as atividades paralisadas, porque a televisão prendia em casa os frequentadores do cinema; sem público, sem sessões. Resolvemos nos mudar para Itapira, porque o trabalho naquela cidade aumentou, proporcionando um bom retorno financeiro e mudamo-nos para lá, onde ficamos por dois anos e meio.  Estava findo o vínculo com a pequena Conchal, “a morada dos rios”, terra que muito me serviu e fui feliz, mas onde jamais voltarei a residir. As atividades foram se reciclando à medida que a modernização invadia e dominava, e eu não podia deixar cair a peteca. Itapira, “a linda” (cognome perfeito!) nos recebeu muito bem e lá pude desenvolver a contento o meu trabalho. Os irmãos Jairo e Jonas Alves de Araújo me ofereceram meia página do Jornal “Cidade de Itapira”, que aceitei de imediato - outra oportunidade remunerada em Itapira e, definitivamente, a minha praia, a exemplo de “A Comarca”, onde amava trabalhar. Mas eu me sentia incomodado e não conseguia esconder que a verdadeira intenção era residir em Mogi Mirim, cidade onde nasci, muito ainda produzia e pela qual sou apaixonado. Fiz isso em 1976 e Odete gostou da idéia, pois ficaria menos distante das irmãs conchalenses. As crianças foram para a Escola Estadual “Monsenhor Nora”, escola-modelo de Mogi Mirim, e tiveram aulas com renomados professores como Enedine Cassiani e Flávio Citélli de Português, Pedrinho dal Rio de Geografia, Alcides Lenhari de Física, Quintino e Conceição de Química, Frederico Heyden, Manuel Silva e Leandro de Matemática. Foram os melhores do seu tempo, a meu ver, alguns ainda profissionalmente ativos, pelo que sei. Ambas graduaram-se pela Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Mogi Mirim e, depois, cursaram outras faculdades de cidades da região. Graziete se saiu expert na alfabetização, com especialidade em crianças com distúrbio de atenção e deficiência de aprendizagem e trabalhou com afinco, por muitos anos, na escola Carisma, da querida amiga Heloíza de Oliveira Zaniboni. Rosana e Graziete prestaram concursos públicos e foram classificadas em primeiro lugar, assumindo de pronto os cargos pelos quais se interessaram em disputar. Estas minhas filhas só me propiciam orgulho e admiração. De minha parte e de Odete, sempre as estimulamos com boa leitura, farta informação e o retorno agora se apresentava; não precisávamos nos preocupar demasiado com elas, pois encontraram bons caminhos para trilhar.

Graziete, como mascote da fanfarra da EE “Monsenhor Nora”.

Primeira comunhão de Graziete, ao lado dos pais.