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Capítulo 59 - O retorno

Eu estava feliz com minha companheira, Odete Megiatto, a bela moçoila conchalense cujo coração arrebatei, e vivíamos felizes em Campinas, no Bairro Guanabara. Eu viajava a trabalho feito um louco pelo circuito Mogi Mirim, Itapira, Artur Nogueira e Conchal. Um belo dia, ela me informou que estava grávida e não sabia quais providências tomar. Eu disse: “Fácil, minha querida, vamos morar juntos em Conchal ou Mogi Mirim, não percamos esta oportunidade de ouro.”

 

Pensamos na confusão que isso poderia gerar, na falação dos diabos e nas feras que teríamos que enfrentar. O que poderia se esperar de uma cidade pequena, cujos habitantes eram conservadores? A situação não era boa: a família Megiatto sempre havia sido contra a nossa união e tentou afastá-la de mim, mandando-a residir em Campinas, com Iracema, sua irmã, e Benedito. Eu a encontrei por lá, ficou mais fácil aos meus propósitos e estávamos juntos e felizes. Como poderíamos voltar a conviver com os parentes, sem parecer provocação? Bem, ela sentia falta dos irmãos, cunhados e, sobretudo, da mãe, Júlia. Seu pai, Luís Megiatto, já havia falecido. De minha parte, desejava gastar menos, viajar menos e descansar mais; o retorno residencial para Mogi Mirim – ou mesmo Conchal – me propiciaria mais tempo livre para ela e para o bebê que estava chegando. O risco estava calculado e resolvemos ir em frente. Além do mais, a vinda de um novo ser faz milagres, bem se sabe, e resolvemos apostar nisso. Eu estava muito feliz com tudo isso. No dia seguinte, fui a Conchal mais cedo, aluguei uma casa a três quadras do centro e voltei a Campinas com as chaves. Iracema e Benedito nos questionaram: “Vocês aguentarão a pressão, depois do que lhes aconteceu? Olhem bem, porque o moralismo por lá é de estraçalhar qualquer cristão!” Esperançosos, respondemos: “Claro que sim, com a ajuda de Deus, tudo dará certo. Precisamos ficar onde podemos ser felizes, trabalhar e criar nossos filhos com paz e respeito. Não burlamos a lei, somos desimpedidos e apenas não podemos nos casar, por enquanto, já que não há o divórcio instituído no Brasil. Apenas vamos morar juntos. Se isso é ofensivo aos conchalenses, não podemos fazer nada e não devemos satisfação a ninguém. Além do mais, temos saudade dos familiares e amigos. Não se esqueçam que o Padre Alberto Velloni é muito amigo dos Megiattos e vai nos abençoar com sua palavra rica e contemporizadora. Dona Júlia há de nos receber bem, sempre entendeu a nossa situação.” Dias depois, estávamos instalados em Conchal aguardando a chegada do bebê. Dona Júlia nos recebeu muito bem, as irmãs de minha mulher começaram a se aproximar, a frequentar a nossa casa e tudo foi se encaixando. Os habitantes da cidade, de início, estranharam e especularam, mas soubemos colocá-los em seus lugares: a receita, neste caso, é não dar satisfações, falar o menos possível e mostrar quão felizes éramos. Corria o ano de 1963 e, aos cinco dias de junho, nasceu nossa filha Rosana. Em homenagem à avó materna, resolvemos anexar Júlia e foi com Rosana Júlia que a paz entre os familiares voltou a reinar.

Júlia Orsi Megiatto, mulher à frente de seu tempo.

O casal feliz Orlando e Odete.

Rosana Júlia Megiatto Bronzatto, aos 3 anos.