Antes do Cine Paratodos, eu mantive o serviço de alto-falantes na Praça de Conchal, a exemplo do que implantei aqui em Mogi Mirim e, pelo som da praça, punha para tocar os tangos de Carlos Gardel, oferecendo-os para uma linda moça por quem me interessei. Eu sabia que um espanhol, antigo namorado da jovem, continuava a investir, mas não iria com ela se casar. A linda moça não mais o queria, mas ele continuou a assediá-la assim mesmo e, pior, com a retaguarda dos irmãos dela, que não me aceitavam. Quer dizer: os irmãos dela aceitavam o espanhol endinheirado e sua obscura história, mas não aceitavam a mim, só porque era pobre, desquitado e pai de três filhos. Só por isso? Bem, tinha a meu favor o fato de ser um esforçado trabalhador, dinheiro sobrando, não tinha mesmo.
Finalmente abordei a linda moça para uma prosa e o melhor da história é que ela preferiu a mim e vinha comigo se encontrar, às esconsas, na padaria do Português. Lá conversávamos, trocávamos experiências de vida e fazíamos planos. Ela me queria e eu a ela. Obviamente, os irmãos souberam dos encontros e lhe deram a dura. O tempo passou e, dia 15 de novembro de 1961, dei a sessão de cinema normalmente. Os conchalenses, descaradamente, já acompanharam com atenção a história da briga do espanhol comigo e me olhavam, entre curiosos e assustados, loucos para saber o que havia acontecido, queriam munição para a fofoca. Eu levava a vida trabalhando e estranhei o comportamento deles certa noite. Nestor, da farmácia, avisou: “Pintaca, você ainda está aqui. Trate de sumir. O espanhol pensa que ela está com você e pôs todo mundo em seu encalço! Está, por acaso?” Eu, mais perdido que cego em tiroteio, respondi: “Não, não está. Ela deve estar na residência, com os pais. Eles a proibiram de se encontrar comigo. Não a vejo desde... desde uns dias. O que teria acontecido?” Nestor da Farmácia especulou: “Todos por aqui pensam que você a levou para Mogi Mirim.” Após a sessão, fui lanchar no bar, como sempre. O estabelecimento pertencia a um cunhado dessa tão querida mocinha conchalense. Lá chegando, encontrei todos de cara feia, afinal a história já havia se esparramado, do jeito que o diabo gosta, sabe-se lá o que mais viria. Eu lhes disse: “Querem saber? Eu não fiz nada, o culpado é esse espanhol e seus amigos arruaceiros, que contaram a historinha ao seu modo e vocês, ignorantes, acreditaram. Vou comer em outro bar, daqui por diante.” Conchal já havia se emancipado de Mogi Mirim à época, um lugarejo muito bom para se ganhar dinheiro, mas péssimo para outras coisas. Não fugindo à regra, odiosamente, as mulheres eram classificadas em castas moralistas, e quem contava um conto, aumentava um ponto. Preocupado, passei a investigar o caso e soube o que aconteceu: a minha adorada saiu da casa de sua mãe, Júlia, e se hospedou na casa de seu irmão mais velho, Armando. Lá ficou uns dias, mas a família achou por bem mandá-la passar uns dias em Campinas, na casa de uma de suas irmãs, Iracema, que havia se casado com Benedito, um músico, aliás, amicíssimo meu, e lá haviam constituído família. Quando soube disso, sorri e pensei: “Pronto, seja feita a minha vontade. Era tudo o que eu queria! Ficarei com minha amada, enfim.” De pronto, descobri o endereço de Benedito e Iracema, dirigi-me para Campinas, onde fui bem recebido. Conversamos muito, falei de minhas pretensões, expliquei minha condição civil - desquitado - e fui respeitado. Em Conchal, a notícia já havia se espalhado: todos sabiam que eu havia encontrado a minha pretendida, em Campinas. Odete era o nome de meu amor.


Odete Megiatto, a filha caçula de Júlia e Luís, em dois preciosos momentos de sua juventude.