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Capítulo 63 – Dissabores

Eu estava no paraíso com toda a família, meus filhos eram unidos e minha amantíssima esposa me acompanhava em todos os eventos. Mas veio o baque: anunciaram que eu não mais seria o gerente do Cine São José. A Associação Mogimiriana de Beneficência resolveu, nesta moderna linguagem corporativa - otimizar as atividades e agregar parcerias - e firmou contrato com duas casas comerciais e outra empresa de cinema, a qual não me chamou para gerenciar. Assim, o prédio da Praça Rui Barbosa seria totalmente arrendado e o acervo da biblioteca “Pedro Paulo Januzzi”, que funcionava no andar superior do cinema, seria transferido para um prédio do Estado, na rua Caiapó, reformado pela Champion Papel e Celulose (hoje International Paper), que abrigaria também a biblioteca pública “Guilherme de Almeida”. Eu fiquei de fora.

 

Já aprendi que desgraça pouca é bobagem e outra forte pancada levei, quando os proprietários do jornal “Cidade de Itapira”, Jairo, Jonas e seu filho, Joninhas Araújo, vieram comunicar que não mais necessitariam de meus serviços. Só pude lamentar, pois há muitos anos fui funcionário daquela casa, fiz muitos amigos itapirenses e cito um deles, sem pestanejar: Léo Santos, ótimo fotógrafo, excelente profissional e fiel amigo, com quem muito aprendi. Em casa, com o tempo livre, só me restou pensar na vida e como são tratadas profissionalmente as pessoas com mais de setenta: colocadas no banco de reservas, sem dó nem piedade, substituídas pela tecnologia e pelos jovens. Não está de todo errado, sempre fui avant-garde, haja vista os projetos que encabecei, todos à frente de meu tempo, mas os idosos deveriam ser mais bem aproveitados. As boas ideias ainda se multiplicam no meu cérebro e não há mais oportunidades para viabilizá-las. O que me faltou – a vida toda - foi o dinheiro para empreendê-las, e, agora, as ocasiões também se esvaem. Diante da angústia, da sensação de inutilidade e do ócio, completei o feedback (como estou moderno hoje!) e me deixei levar ao tempo das vacas magras e de muita luta. Remexendo velhos papéis e compromissos assinados, senti tristeza pela antiética do sócio da Rádio Cultura em não quitar o meu devido e minhas comissões; guardo um envelope com os valores de meus descontos e do principal a receber, caso haja dúvidas. Possuo também os recibos de uma das fervorosas campanhas políticas para deputado (1954 a 1971) que somam setenta e oito mil e trezentos cruzeiros, na moeda de então, aguardando o ressarcimento. Nunca vi a cor destes dinheiros, apesar de insistentes apelos feitos às famílias, porque meus dois maiores devedores já partiram para o mundo dos mistérios. Sabem o que fiz? Esgotado pela inglória luta, entreguei os recibos a Deus, para a contabilidade celestial. Lá não há prescrição e, certamente, receberei pelas dívidas. Corrigidas, é claro. Mesmo posto para escanteio, divirto-me com as palestras que dou nas escolas e nas entidades, para os adolescentes que desejam conhecer melhor a cidade onde vivem. Possuo um documentário feito com base nos escritos do saudoso “Filemon”, Antenor Ribeiro, que narra fatos sobre Mogi Mirim. Depois, projeto um filme chamado “Mogi Mirim na Tela”, com imagens datadas de 1928, documentando a vida social da cidade: carros e vestimentas antigas – paletó, gravata e chapéu – até mesmo no campo de futebol. Mostro as moças vendendo flores aos moços em benefício a alguma entidade, na Praça Rui Barbosa, Cine São José e suas matinês, as saídas das missas dos domingos, entre outras cenas da Mogi Mirim antiga. Apresento-me, amiúde, no Tiro de Guerra 02-023, para narrar aos soldados as minhas andanças de caserna e lá projeto o documentário “Tiro Mogimiriano 435”, de 1917 até os tempos atuais, e ainda “Duque de Caxias”, um filme 16 mm sobre a vida de tão importante figura. Como vêem, pus a autopiedade de lado e, com disposição e saúde, mostro o meu trabalho para quem quiser me ouvir e me ver.

Palestra ao TG 02-023, que tinha à frente o Sargento (hoje, Capitão) Carlos Roberto Sandy.

Palestra no colégio Imaculada Conceição, 1995.