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Capítulo 8

De certa feita, meu pai foi convocado para trabalhar como pedreiro em uma obra de reforma do prédio da Casa Cardona, onde era publicado o jornal “A Comarca”. O pai me disse: “- O “seu” Cardona está precisando de um menino de recados. Você quer ir trabalhar lá? Você pode ir depois da escola. Você vem pra casa, almoça e vai para o trabalho – da uma às cinco e meia. Aceita?”

 

Respondi: “- Aceito,  mas não quero deixar o Grupo Escolar.” Nesse tempo, eu estava matriculado no Grupo “Dr. Oscar Rodrigues Alves”, que se localizava na Rua Chico Venâncio, como já citei na ocasião da cata aos caquis, na hora do recreio. Então, foi no ano de 1927 que iniciei meu trabalho na Casa Cardona e, ao mesmo tempo, no jornal “A Comarca”. Eu era o menino de recados e, com muita honra, corria a cidade entregando contas nas firmas e fazendo a cobrança das propagandas e publicações que eram feitas pelo periódico. Foi aí que começou o meu relacionamento com as famílias mogimirianas e que pude notar a discrepância econômica que existia na cidade. Concomitante ao meu estudo no Grupo, fui me familiarizando com as artes gráficas e composição de tipos originais. Meu primeiro trabalho foi sobre o Maestro Carlos Gomes, um artigo escrito pelo patrão-redator, Jornalista Francisco Piccolomini. Recebi também os ensinamentos do outro patrão, Senhor Orlando Paccini, que foi quem me ensinou os segredos da composição, da paginação e das pequenas máquinas Tip-Top, que exigiam a movimentação com o pé direito, enquanto as mãos trabalhavam os cartões na resma para serem impressos.  O jornal “A Comarca” fazia uso de uma impressora “movida a feijão”, como dizíamos, porque exigia força, e quem a movimentava era “seu” Carrinho, um senhor que virava a grande roda que contrabalançava o ritmo da impressão. Lá em cima, o “seu” Germano Silva ia, com os dedos, encaixando a folha no roto que levava até as resmas dos tipos. Eu ficava aguardando a saída da folha depois de impressa e cuidava da arrumação do monte que ia se formando. Depois de tudo impresso, colocávamos as folhas nas mesas e nós mesmos as dobrávamos, para compor o jornal e entregar aos assinantes. Hoje, a velha impressora está catalogada e exposta no Museu “Guilherme de Almeida” no Centro Cultural “Lauro Monteiro de Carvalho e Silva”. Sinto saudades dessa época em que conheci o velho gaúcho Francisco Cardona que, antes de falecer, teve o zelo de passar o acervo a três senhores que, com seu trabalho e carinho, fizeram-no crescer e completar o primeiro decênio. Foram eles Francisco Piccolomini, Orlando Pacini e Emílio José Pacini. Eis uma imagem da Casa Cardona, que se situava na esquina da Praça Rui Barbosa, onde hoje está um sobrado amarelo e uma lanchonete.