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Capítulo 9

Tive um tio que deixou a batina para se casar com uma das Filhas da Congregação de Maria, Marietta. Pelo que consta, o casamento deu-se com a anuência da Santa Sé, o que não vem ao caso, e só citei esse tio pela importante colaboração em minha vida cultural, porque o período escolar não foi fácil.

 

Após seu casamento, Tio Luiz foi lecionar no Colégio Imaculada e, vez que era poliglota, ensinava diversas matérias. Todas as tardes, após o almoço, ele passava lá em casa e me passava uma lição. Na segunda-feira, Português; terça-feira, Francês; depois, problemas de Álgebra; mais tarde, Latim, e assim por diante. No outro dia, corrigia a lição anterior e me ensinava uma nova. Quando prestei concurso para carteiro em 1936, todo esse estudo me serviu, já que Francês era o idioma obrigatório no ensino curricular brasileiro.  Fui aprovado entre os dez primeiros, mas essa é outra história. Estava eu ainda no primeiro ano de Grupo. Devido aos ensinamentos de Português que recebi no jornal, era sempre o primeiro a entregar as lições das aulas. Para minha surpresa e indignação, isso acabou causando problemas de relacionamento com os colegas de classe e também com as professoras.  Nesse mesmo ano, nas férias de julho, passei por um exame de provas ministrado pelo Inspetor Professor Clozel em parceria com o Diretor Professor Gabriel Costábile e mais duas professoras. Para minha surpresa, esse Conselho concluiu que eu deveria cursar também o segundo ano. Assim, fiz duas séries concomitantes em um ano, passei para o terceiro e fui ao quarto ano, concluindo os estudos do Grupo Escolar. As condições financeiras lá de casa eram apertadas e eu tive que continuar a trabalhar na Casa Cardona, onde, mais tarde, iniciei uma coluna de esportes, assunto que reportarei à frente, com muito gosto. Ocorreu um fato no Grupo Escolar que precipitou uma iminente reunião do “inspector” com as professoras e o Diretor. No primeiro ano, existia a Professora Escolástica, uma morena magricela, ruim como cobra, que cutucava os alunos com um ponteiro de ponta fina quando conversavam com o colega ou viravam para trás por qualquer motivo. Esse ponteiro deixava marcas e doía muito. Nós, alunos, julgávamos que essa mulher sentia raiva do mundo, acabando por derramar sua infelicidade em seus reles aprendizes. Certa manhã, fui para a aula doente dos intestinos.  Feita a chamada, levantei a mão, pedindo a palavra à professora. Levantei-me, fui até ela e disse: “-Dona Escolástica, eu não estou me sentindo bem, dói-me a barriga. Se eu precisar, a senhora me autoriza a sair?” “-Sai nada. Se entrou em aula, espere o recreio e vá se sentar.” – respondeu a malvada. Até que me agüentei bem. Faltando meia hora para findar a aula, lá pelas onze e meia, senti fortes dores abdominais e, levantando a mão, disse: “-Dona Escolástica, preciso sair para o banheiro, não agüento mais.” Ela respondeu-me: “-Faltam só vinte minutos, não saia.” Suando muito, fiquei em sala de aula até o fim, desci as escadas, muito apurado. Minha casa ficava na Rua José Bonifácio, defronte ao largo do Colégio Imaculada. Eu andava depressa, quase correndo, apertando as pernas, tentando me conter, mas, a cinqüenta metros da casa, a coisa desandou. Fiz muita sujeira nas calças, humilhado. Minha mãe e avó ficaram doidas quando me viram chegar. Expliquei os fatos e minha mãe tomou todas as providências: deu-me banho, trocou-me as roupas, segurou-me pela mão, atravessamos a rua até a casa do Inspetor Clozel, que residia defronte a nossa casa. A empregada atendeu e nos levou até o Inspetor, que ouviu atentamente minha mãe: “-Não fosse a nossa amizade, inspetor, e também pelas costuras que faço para a sua senhora e suas filhas, eu iria agora mesmo para a Delegacia registrar queixa contra essa professora e, de quebra, contra o estabelecimento.” Clozel assegurou: “-Não é necessário, Dona Vitalina. Eu mesmo tomarei as providências.” De fato, pude ver a remoção daquela Escolástica para o Primeiro Ano B. Antes, porém, aplicou suspensão de trinta dias àquela infeliz mulher, registrando o fato no prontuário laboral. Senti-me vingado, embora, todos os dias, à hora do recreio, a impiedosa professora me comesse com os olhos de ódio. Pode parecer insuficiente a punição, mas fez-se justiça, a meu ver. A coluna homenageia a Irmandade das Filhas de Maria de 1942: Professora Jacy Neves, Presidenta da Congregação, casou-se com o saudoso Alfeu Brandespin; e Lourdes Chaib, filha de Maria e Salim Chaib, Presidenta da Cruzada Eucarística.

Fonte: revista “O Sol da Verdade” - 1942.