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Capítulo 3

Os eucaliptos nos ofereciam uma agradável sombra sob a qual festejávamos o domingo. Ao lado do armazém do Tio Luiz Zorzetto havia o gramadão do campo de futebol, onde a criançada quebrava o pau por conta de um jogo, do qual ninguém queria sair vencido. No campinho, para o escoamento das águas pluviais advindas do alto da cidade, havia enormes bueiros abertos de mais de metro de profundidade, local estratégico para a nossa brincadeira de esconde-esconde e também para passar a mão nas meninas. Era uma farra!

“Se continuarem assim, não brincamos mais.” - diziam elas, despeitadas e desejosas. De quando em vez, um adulto vinha nos fiscalizar e nos transformávamos em santos. O adulto ia para o eucalipto e a mão-boba se descontrolava novamente. Upa, que farra! Fomos crescendo e nos distanciamos no decorrer dos anos escolares. As coisas se modificaram por si mesmo e o respeito mútuo imperou. As moças já tinham namorados e, assim como um filme queimado, todas as lembranças ficaram para trás. O Grupo Escolar “Dr. Oscar Rodrigues Alves” ficava na rua Chico Venâncio, onde hoje está o escritório do Carlos Taraschi e da Família Surur. Foi lá que estudei aos sete anos de idade. Lá havia um pé de caqui, cujos frutos eram objeto de desejo de todos os alunos. Assim que batia o sinal para o recreio, os alunos se debatiam para ver quem chegava primeiro aos caquis, o que acabava em briga e confusão. O Diretor Professor Gabriel Costábile se via obrigado a recolher alguns alunos em seu gabinete, tomar-lhe os nomes e, depois, chamar os pais. A pena era uma sova com vara de marmelo ou cinta. Como doía! Principalmente no moral, já que os colegas de classe ficavam sabendo da punição e nos gozavam a valer. As professoras eram presenteadas com frutas e tudo ficava em paz. Quer dizer, éramos verdadeiros puxa-sacos. Era preciso. Num dos cantos da sala estava o ponteirão de quase dois metros de comprimento, com uma ponta saliente. Havia outra ameaça: um banquinho no outro canto, ao lado da professora, onde o aluno ficava sentado, vestindo um chapéu com orelhas de burro. Os pais, claro, eram cientificados do ocorrido, acarretando mais tapas e sovas com varas de marmelo. Minha infância foi das mais movimentadas. Meus pais não perdiam a sessão de cinema das terças-feiras, na “sessão das moças”, onde as mulheres só pagavam meia-entrada, nem a dos sábados e as matinês dos domingos, quando eram exibidos duas vezes os principais filmes, em “episódios”.

Foto de parentes e amigos nos eucaliptos do Cubatão.

Foto antigo GE “Dr. Rodrigues Alves” – Rua Chico Venâncio. – Prédio do Surur. Foto da turma de 1932 – Professor Gabriel Costábile.