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Capítulo 1

Lembro-me de minha infância, morava no tradicional bairro onde nasci, o Aterrado, ainda um ponto estratégico de saída para Martim Francisco, local onde centenas de pessoas iam cumprir promessa a Nossa Senhora Aparecida. A imagem ficava num altarzinho, ao lado da parafernália de muletas e fotografias, onde todos faziam suas preces e agradecimentos pelas graças recebidas da Santa, na casa de uma família que recebia os visitantes, carinhosamente, com café e biscoitinhos. Os pagadores de promessas deixavam sobre o prato qualquer dinheiro.

No bairro do Aterrado, a família Morari se transformou em “posto de escuta”, não só pelo grande armazém que possuía, como também por atender a todas as pessoas do bairro, vendendo-lhes a prazo, assim como para os sitiantes, ao prazo da colheita, dentro de um ano. Quando a família Donegá chegou da Itália na grande migração, veio fixar residência no Sítio dos Miguéis, no alto do bairro aterradense, sentido Martim Francisco. Da família de meus avós Ângelo e Ângela Donegá, após quatro anos no Brasil, nasceu Vitalina, minha mãe. O Avô Ângelo, então, resolveu comprar uma chácara defronte o armazém dos Moraris, em cuja casa minha mãe veio a laborar, já moça. A família Bronzatto, também vinda na mesma migração, foi morar no bairro do Cubatão, onde meu avô Pedro adquiriu gleba de terra. Com o seu trabalho, transformou-a em imensa chácara com hortaliças, as quais eram vendidas pelas ruas da cidade. João, com três anos, ajudava no trabalho. O tempo passou. João e Vitalina se conheceram no jardim da praça Rui Barbosa, namoraram e, com a aquiescência de seus pais, se casaram. Vitalina sofreu grave problema no útero, perdeu dois filhos, submeteu-se a um severo tratamento ministrado pelo Doutor Tóffoli, do Circolo Italiano de Campinas. Enfim, nasci em 2 de julho de 1919. Acontece que minha mãe não tinha o leite materno e teve que recorrer à ajuda de uma senhora negra, casada, residente no bairro do Aterrado, que prontamente se ofereceu para me amamentar, o que durou oito meses. Tive como companheira de peito uma das filhas da família Missaglia, Alice, irmã de João Missaglia, que viria a ser um dos Prefeitos de Mogi Mirim. Assim, graças a essa senhora, sobrevivemos e, de minha parte, aprendi a ter respeito à raça negra, embora, por vezes e vezes, saiba muito bem o preconceito que a rodeia. Aos cinco anos, aos domingos, acompanhava meu pai em suas caçadas com a velha espingarda cartucheira. Íamos aos sítios vizinhos pela manhã, quando o sol começava a apontar seus raios, clareando o mundo e minha querida cidade de Mogi Mirim. Sempre procurei ser um bom filho, ainda não conhecia as letras do alfabeto, mas já compreendia muitas coisas dessa trabalhosa vida de meus avós e meus pais. Foi durante o ano de 1924, cinco anos depois, numa certa manhã, quando meu pai disparou sua cartucheira, é que avistamos um sitiante, que nos avisou: - Voltem para casa, estourou uma revolução no Brasil! O Presidente Washington Luiz havia declarado para todos os brasileiros aquele célebre adágio “salve-se quem puder”. Deu-se o descalabro, muitos fazendeiros se suicidaram pela grande perda de dinheiro para os bancos e foi um corre-corre dos infernos. Evidentemente, quem mais perdeu foram os ricos proprietários de muitas terras; os pobres, como meu avô, que só possuía uma pequena chácara, nada perderam.

A cartucheira de meu pai silenciou enquanto muitas outras armas foram acionadas.

1.    FAMÍLIA BRONZATTO – foto da Chácara de Pedro Bronzatto, no Bairro do Cubatão, em 1925. Da esquerda para a direita: tio PEDRINHO BRONZATTO, tio HÉLIO no colo de VITALINA DONEGÁ BRONZATTO (MÃE DE PINTACA), JOÃO BRONZATTO (PAI DE PINTACA), ORLANDO BRONZATTO, o Pintaca, tio TARCÍLIO BRONZATTO, tia CÁRMEN COELHO, casada com o tio AUGUSTINHO BRONZATTO, tia JOSEFA GUARDIA BRONZATTO, casada com o tio ANGELIN BRONZATTO. Segunda fila: tia ANGELINA BRONZATTO, primo NELSON ZORZETTO  e sua mãe, tia FLORINDA DAVOLI ZORZETTO, casada com o tio ANTÔNIO ZORZETTO, o garoto NESTOR, no colo da tia Florinda, NANCY ZORZETTO. O Avô PEDRO BRONZATTO, dono das terras e chefe da família. A garotinha é a Tia HELENA BRONZATTO.

2. João Bronzatto -   Romaria para Aparecida, em 1928. Juvenal, Tio Ricardo, Bepe, O PAI JOÃO BRONZATTO  e Timóteo (todos os outros de Jundiaí).

3. VITALINA BRONZATTO – reencontro com a irmã, em Guaiçara.