Após dois anos do falecimento de Orlando Bronzatto, o Pintaca, poderemos conhecer uma obra inédita de sua autoria. Trata-se de seus escritos encontrados por Rosana Julia, sua filha, que compilou em capítulos e resgatou as fotos antigas, que agora poderão ser conhecidas neste site. É uma rica história que resgata fatos e lugares antigos e relembra queridas pessoas que conviveram à época de Pintaca. Apresentamos a vocês o Prefácio de Pintaca e suas Memórias.
Quando deparei com os rascunhos deste livro, datilografados na velha Remington, em papel-jornal pardo, veio-me a obstinada e certa idéia de que teria de imprimi-la. Na verdade, o pai, em vida, já os havia me mostrado, mas somente comecei a transcrição para o computador após o seu falecimento. Penso que talvez não fosse seu desejo que o fizesse enquanto era vivo, pois ele não pretendia discutir os fatos narrados, não admitia certos questionamentos e nem desejava me pôr a par de certos detalhes. Tampouco eu me sentiria bem em apontar alguns assuntos tão seus.
Tudo digitado e corrigido, pude notar que faltaram dois pontos, imprescindíveis a meu ver: ele não explicou o porquê do apelido “Pintaca” e nem relatou uma passagem da “caixa de fósforos”. Por que não o fez, se eram histórias que ele repetia a todo instante? Tomo a liberdade de comentá-los, então. A questão do “Pintaca” é fácil: foi em alusão ao Carlo Pintacuda, italiano que pilotava um Alfa-Romeo 308 nas corridas de autos. Esse corredor era raçudo! No braço, competia com os carros alemães nos anos dourados do automobilismo, na década de 1930, tempo em que o pai havia sido aprovado no concurso e nomeado para o cargo de carteiro dos Correios. Lépido, fazia a entrega das correspondências em sua bicicleta. De Pintacuda-do-Alfa para Pintaca-da-magrela foi um pulo. O outro ponto foi por ocasião do nascimento de algum dos seus filhos ou por doença de alguém da família, lá sei! Enfim, o pai contava que não havia dinheiro para nada. Estava ele muito despreparado e preocupado, num corredor de hospital, sem saber como pagar as contas. Eis que avistou uma caixinha de fósforos num cantinho daquele corredor comprido. Cabisbaixo, mãos nos bolsos, enquanto aguardava o tempo passar e, principalmente, pensava na solução para os problemas de sua vida, deu um chutezinho na caixa, fez evoluções, chutou-a novamente, empurrando-a até o fim do corredor. Ainda aos chutes na caixa, percorreu todo o corredor de volta ao ponto de partida, agachou-se, pegou a caixa do chão para jogar na lixeira, deu-lhe uma chacoalhada, não havia palitos, não se ouviu barulho. Ele abriu a caixa e descobriu as ricas cédulas dobradas. Era muito dinheiro! Estava salva a lavoura, naqueles tempos difíceis. Em casa, ouvia-se rádio e vitrola. Havia um álbum de Carlos Gardel, muitos discos de tango, bolero, foxtrote e temas de filmes. Cresci ouvindo boa música, portanto, mas não entendia por que ele mantinha discos com jingles sobre produtos da Gessy Lever e da Phillips. Ora, aprendi neste livro que ele os usava para dar credibilidade à sua Rádio Cultura e convencer os comerciantes de Mogi Mirim a fazer a publicidade de suas lojas, em tempos incertos. Bem bolado! Aberto o seu acervo maravilhoso de fotos, casos, filmes, histórias e contos, separei o material e, ao catalogá-lo, infelizmente não encontrei os roteiros daqueles chás-shows que escreveu na época da guerra, ou do Teatro São José, ou do Grêmio Mogimiriano. Eu posso deduzir, mas gostaria de ter sabido realmente quais canções ele escolhia, quem as cantava e quais eram os temas das historietas. O amigo Professor Tóride Sebastião Ceregatti teve papel de destaque nos últimos anos de vida do pai: ajudou-o a compilar fotos numa amostra de livro, que ainda aguarda melhores condições desta que vos escreve para ser efetivamente publicado. Tóride colaborou com algumas de suas fotos também neste livro. Agradeço-o imensamente. Ainda sobre o vasto material do pai, estava eu completamente sem norte na classificação delas, tantas eram, amarelecidas já estavam. Inesperadamente, me apareceu o maioral da daguerreotipia e discípulo de anjo, Hélio Fernandes Cortez para me salvar da confusão e, de pronto, digitalizou as fotos para esta obra e para o site do Pintaca, a ser lançado em breve. Deus o abençoe, Hélio. Os colegas de trabalho de “A Comarca” atribuíram ao Orlando Bronzatto um segundo codinome – Highlander -, aquele guerreiro nascido McLeod, em 1518. Sua missão é lutar contra os poderes das trevas, através dos séculos, para manter em pé a própria cabeça; faina dura e perpétua para o combatente imortal, nos infindáveis quatro filmes estrelados por Sean Connery e Chistopher Lambert. Parafraseando Herbert Vianna, a vida não é filme e algo deu muito errado com a imortalidade deste nosso guerreiro: Pintaca foi para o mundo dos mistérios – sua máxima, das colunas - aos 12 de dezembro de 2005, deixando insuportável e dolorosa saudade, como sói com pessoas interessantes, gentis, honestas, boas de coração e de espírito, quando nos deixa deste lado. Resta dizer que o pai, homem afetuoso, capitaneou empreitadas memoráveis, pugnando pelo desenvolvimento cultural da cidade e fazendo história. Pintaca revolucionou, esta é a mais pura verdade. Eis, então, a sua própria história, em linhas simples, claras e, para mim, profundamente significativas.
Rosana Julia Megiatto Bronzatto, a filha.