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Capítulo 50

Eu estava fora da Rádio Cultura de Mogi Mirim, a menina de meus olhos. Telefonei para um amigo em São Paulo e fui trabalhar com fotografias, revelação, fixação, cópias e ampliações, pois meu padrinho de casamento e amigo Mauro Antunes Garcia havia me ensinado muito do ofício. O trabalho com fotos me conduziu ao laboratório de filmes 16 mm da Avenida Paulista, que também praticava o serviço de orquestra invisível. Explico: nos bailes das mansões paulistas, ao invés de orquestra ao vivo, a firma instalava uma rede de falantes, os quais ficavam escondidos atrás dos móveis das casas. O amplificador e a vitrola ficavam na cozinha, onde um operador dispunha os discos 78 rotações por minuto. A festa durava até a manhã do outro dia, todos dançavam e pediam músicas. O moço queria dançar tango e me dava uma gorjeta, a moça queria dançar bolero, o noivo dela me dava gorjeta. O serviço era perfeito, a dona da mansão pagava muito bem por ele e me dava gorjeta. Quando o serviço acabava, recolhíamos os aparelhos e eu ia para a pensão da Praça João Mendes, para contar a féria. Dia seguinte, voltava a Mogi Mirim para ver a família.

 

Um belo dia, Alcides Hortêncio me chamou, quando eu passeava pela Praça Rui Barbosa: “-Ó Pintaca, tem gente de Campinas querendo lhe falar. Procure o Pedroso, na Rádio Brasil. As coisas na Rádio Cultura também não andam bem, Sampaio está preocupado, o dinheiro está curto, nem o “Peça e Ouça” está dando dinheiro. Geraldo, Dito Rocha e Toledo gastam à noite todo o dinheiro ganho no dia. Ninguém está anunciando.” Eu não quis saber de nada dos meus traidores da Rádio Cultura, ignorava-os profundamente. No dia seguinte, ao voltar para São Paulo, parei em Campinas para falar com os Pedrosos, donos das emissoras Rádio Brasil e Cultura. Pedroso, ao me ver, cumprimentou-me efusivamente e me propôs a administração da cobrança das emissoras da Noroeste e da Sorocabana, as quais haviam sido arrendadas, mas que não se via dinheiro algum. Além do que, ambas estavam precisando de manutenção. Arrumei férias de duas semanas na empresa de filmagens e orquestra invisível da Avenida Paulista e me apresentei aos Pedrosos. Fui até Presidente Anastácio, onde encontrei uma das piores estações de rádio que já pude ver. Arrumei-a da melhor maneira possível, consegui receber os atrasados, segui para oito cidades, até que, um dia, em Promissão (velha conhecida de outros tempos), soube que o Prefeito queria comprar a emissora.). Mediei a negociação e voltei para Campinas. Agora eu era um homem de negócios e um cobrador que conseguiu receber o que havia sido dado como perdido, enfim, estava produzindo muito. Mas, longe de minha querida Rádio Cultura, não me sentia nem um pouco feliz.

Foto - Mauro Antunes Garcia, um grande fotógrafo. Padrinho de Casamento de Pintaca e Zulmira (Foto Penha, arquivo Simão Bottesi).