Eu me sentia muito feliz com minha nova família, residindo em Conchal. As chateações de início foram se esvaindo, aquele bom (e moralista) povo foi se acostumando à ideia de um casal morar junto sem ter recebido as bênçãos religiosas, embora mantivéssemos uma estreita relação com o Padre Alberto Velloni, pároco local, o que tornava tudo ainda mais estranho e confuso, aos olhos dos outros. Amávamo-nos muito, eu e Odete, apenas isso.
Eu continuava viajando pelo circuito regional, para executar o trabalho nas clínicas de repouso Santa Fé e Cristália e no Jornal Cidade de Itapira, na Rádio Cultura de Mogi Mirim e no Cine Paratodos de Conchal. Vivíamos com conforto e dignidade e nada nos faltava. Às quartas-feiras, ia a São Paulo para fechar contratos com os estúdios da Warner Bros e Metro-Goldwyn-Mayer e agendava cópias dos filmes de sucesso para exibir no Cine Paratodos, de Conchal, e no Cine São José, de Mogi Mirim, do qual eu era o programador. Trazia da capital, todas as semanas, a revista de variedades e fotonovelas chamada “Grande Hotel” para a minha mulher e um gibi do Walt Disney para minha filha, que, ansiosa, me aguardava na calçada e corria para comigo se encontrar, ao me ver chegando com as malas de filmes. Que boa lembrança! Odete era exímia costureira; Rosana Júlia, estudiosa e voltada à literatura. Nas festas de escola, declamava com facilidade os longos poemas que lhe confiava a Diretora Luzia Carlini Gelly, ensinando-lhe as técnicas de memorização e ensaiando a apresentação. Nove anos mais tarde, em 24 de agosto, nasceu Graziete, minha caçula, que recebeu o nome da avó paterna, Vitalina. Em 1973, o Cine Paratodos teve as atividades paralisadas, porque a televisão prendia em casa os frequentadores do cinema; sem público, sem sessões. Resolvemos nos mudar para Itapira, porque o trabalho naquela cidade aumentou, proporcionando um bom retorno financeiro e mudamo-nos para lá, onde ficamos por dois anos e meio. Estava findo o vínculo com a pequena Conchal, “a morada dos rios”, terra que muito me serviu e fui feliz, mas onde jamais voltarei a residir. As atividades foram se reciclando à medida que a modernização invadia e dominava, e eu não podia deixar cair a peteca. Itapira, “a linda” (cognome perfeito!) nos recebeu muito bem e lá pude desenvolver a contento o meu trabalho. Os irmãos Jairo e Jonas Alves de Araújo me ofereceram meia página do Jornal “Cidade de Itapira”, que aceitei de imediato - outra oportunidade remunerada em Itapira e, definitivamente, a minha praia, a exemplo de “A Comarca”, onde amava trabalhar. Mas eu me sentia incomodado e não conseguia esconder que a verdadeira intenção era residir em Mogi Mirim, cidade onde nasci, muito ainda produzia e pela qual sou apaixonado. Fiz isso em 1976 e Odete gostou da idéia, pois ficaria menos distante das irmãs conchalenses. As crianças foram para a Escola Estadual “Monsenhor Nora”, escola-modelo de Mogi Mirim, e tiveram aulas com renomados professores como Enedine Cassiani e Flávio Citélli de Português, Pedrinho dal Rio de Geografia, Alcides Lenhari de Física, Quintino e Conceição de Química, Frederico Heyden, Manuel Silva e Leandro de Matemática. Foram os melhores do seu tempo, a meu ver, alguns ainda profissionalmente ativos, pelo que sei. Ambas graduaram-se pela Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Mogi Mirim e, depois, cursaram outras faculdades de cidades da região. Graziete se saiu expert na alfabetização, com especialidade em crianças com distúrbio de atenção e deficiência de aprendizagem e trabalhou com afinco, por muitos anos, na escola Carisma, da querida amiga Heloíza de Oliveira Zaniboni. Rosana e Graziete prestaram concursos públicos e foram classificadas em primeiro lugar, assumindo de pronto os cargos pelos quais se interessaram em disputar. Estas minhas filhas só me propiciam orgulho e admiração. De minha parte e de Odete, sempre as estimulamos com boa leitura, farta informação e o retorno agora se apresentava; não precisávamos nos preocupar demasiado com elas, pois encontraram bons caminhos para trilhar.

Graziete, como mascote da fanfarra da EE “Monsenhor Nora”.

Primeira comunhão de Graziete, ao lado dos pais.