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Capítulo 43

No dia 7 de setembro de 1950, às 15 horas, Mário, o japonês montador, ligou o transmissor, repassou os controles e disse: “-Pode mandar o Hino Nacional. Prega fogo, Orlando!”

Tremendo de emoção, coloquei o disco 78 rpm no prato, liguei o motor, abri o volume e foi ao ar nosso tão maravilhoso Hino, iniciando, assim, a primeira transmissão da emissora que se chamaria Rádio Cultura de Mogi Mirim.

 

Finda a execução do Hino Nacional, abri o controle do microfone e disse, emocionadíssimo: “-No ar, em caráter experimental, a sua emissora de Mogi Mirim. É a Rádio Cultura de Mogi Mirim que, neste instante, dá início a um programa de variedades e música. Ouçam, pois, agora e todos os dias, a ZYR-26, a sua emissora, que estará em seu receptor e em seu lar. A voz de um município de São Paulo nos céus imensos do Brasil. Para iniciar o programa, Francisco Alves em “Na Virada da Montanha”, parceria com Ary Barroso e Lamartine Babo. Depois, “Minha Terra”, parceria com Valdemar Henrique e “Fita Amarela”, de Noel Rosa, na esplendorosa voz de Francisco Alves!” Eu tremia, aos poucos, me controlei. Que sonho! Começou a chegar gente, para conhecer o local. Vinham de carro, a pé. Era a minha vitória, meu sonho realizado. Eis que algo dá errado: queimou o transformador do transmissor.  O “olho gordo” foi tanto que, às 16 horas tivemos que parar.  Desligamos o transmissor. Mário foi à rodoviária, tomou o primeiro ônibus para são Paulo, foi à Sociedade Técnica Paulista, trocou a peça à noite e voltou para Mogi Mirim no dia seguinte. Reinstalamos o aparelho e a emissora voltou a transmitir. Era 8 de setembro, quando, à época, comemoramos o Dia de Nossa Senhora Aparecida, a rádio voltou ao ar e, daí em diante, não parou mais. Embora um casal de nordestinos cuidasse muito bem da aparelhagem, no Campo da Experiência, na Vila perto do Aterrado, o caríssimo material não poderia continuar ali. Resolvemos mudar para o prédio da Rua Padre Roque, nº 60, onde funcionava o meu Serviço de Alto-Falante “Vitória”. Preparamos a mudança, procuramos a empresa de Força e Luz para conversar com o técnico-chefe, o amigo José Cani. Ele e dois colegas puxaram a linha dupla, que traria o som do transmissor para a Rua Padre Roque, com dezenas de braceletes nos postes. O transmissor continuaria no prédio da Vila, aos cuidados do casal de nordestinos, que ligava o aparelho às 6 horas e o desligava às 18 horas, horário de nossa permissão de transmissão experimental. Isso me custou um pouco à saúde. O que importava a minha saúde? A Rádio Cultura de Mogi Mirim estava no ar, meu sonho se realizava. Meus primeiros clientes foram Pedro e Toninho Botelho, que anunciávamos de graça, em troca de uma Remington, Lojas Timmermann e A. Trentin, do amigo Aristides, que verdadeiramente acreditaram na Rádio. Fui a São Paulo no “Seu Radico”, uma empresa que representava emissoras do interior, e adquiri jingles da Gessy Lever e da Phillips. Assim, eu botava os jingles das marcas conhecidas, fazendo de conta que aquele horário fora vendido para as grandes marcas. Desta forma, comecei a receber o apoio do comércio local; as famílias mogimirianas pediam – e pagavam muito – para ver anunciados seus nomes na minha rádio, ao lado das marcas famosas. Nota de Rosana, a filha: “Na minha infância, ouvia-se muito rádio e vitrola; a TV demorou a chegar lá em casa. Minha mãe era costureira de mão cheia e, enquanto cosia no quarto de costuras, ouvia os programas e as novelas no rádio; eu estava sempre por perto dela, rabiscando as paredes com giz, dando “aula” para as bonecas e ouvindo os efeitos especiais das novelas narradas no rádio. Na discoteca, eu bem me lembro de um álbum de Carlos Gardel, muitos discos de tango, bolero, foxtrote e temas de filmes. Cresci ouvindo boa música, portanto. Eu apenas não entendia por que ele mantinha pesados discos com jingles sobre produtos da Gessy Lever e da Phillips, locuções bem feitas fazendo propagandas de produtos recém-lançados dessas marcas, já muito famosas. Ora, aprendi agora que meu pai os usava para dar credibilidade à sua Rádio Cultura e convencer os comerciantes de Mogi Mirim a fazer a publicidade de suas lojas, mesclando a sua linha de produtos à das marcas de renome. Bem bolado!”