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Capítulo 39

Eu adorava trabalhar no Serviço de Auto-Falante “Vitória”. Manelão, que vendia jornais e revistas nos trens da linha Itapira/Campinas, me trazia um “Diário da Noite” todos os dias. Esse jornal me servia de grade para transmitir o jornal falado às 20 horas, após a “Hora do Brasil”. No intervalo, eu descia ao bar de Clementino Diogo, pai de Oswaldo, e tomava um refresco de ¼, de extra-cola, dos Irmãos Stortis. Aconteceu um fato que ficou para os anais. Eu conto.

 

Numa noite, no jornal falado do estúdio, quando noticiava coisas do Rio de Janeiro, não consegui me segurar e arrotei. Emendei, logo em seguida: “-Isso se cura com Sal de Frutas Eno. Notícias do Rio, Palácio do Catete ...” Eu esperava que ninguém tivesse reparado a minha falha. O jornal era patrocinado pelo “Palácio dos Rádios”, do saudoso Santinho Coppo. A praça ficava lotada pelos familiares mogimirianos, que ansiavam pelas notícias do Brasil, toda noite. Após o jornal, havia o programa "Peça e Ouça", do Geraldo. Eu estava arrumando os discos que seriam executados no programa dele, eis que aparece na porta do auditório o Santinho Coppo, meu patrocinador, e Ângelo Bonel. Eram amigos inseparáveis. Santinho me olhou e disse: “-Sal de Frutas Eno, Orlando? Sal de Frutas Eno, é?” E saiu. Fiquei pensando que precisava pedir-lhe desculpas e o fiz, de fato, no dia seguinte, com toda a deferência e humildade. Santinho aceitou-as e tudo ficou como dantes. Mas teve troco. Além do serviço de som da praça, o “Vitória”, eu irradiava os jogos diretamente do campo “Vail Chaves”, do Mogi Mirim Esporte Clube. Hoje se chama “João Paulo II”. Montei um palanque para melhor visão do campo e do jogo. Numa tarde de domingo, eu estava transmitindo um jogo e começou a chover. O estádio tinha três degraus, que serviam de arquibancada; atrás, uma fileira de altos eucaliptos. Para se abrigar da chuva, a assistência postou-se sob os eucaliptos. Oswaldo (Naquinho) Posi veio se abrigar do chuvisco sob o meu palanque, enquanto eu irradiava com emoção todas as jogadas. Em dado momento, Naquinho virou-se de lado e fez xixi. Eu, lá de cima, reparei naquela atitude de Naquinho e continuei a locução, completamente empolgado com o lance futebolístico, tentando traduzir com detalhes o que estava ocorrendo em campo. À noite, fui para o estúdio e eis que surge à porta Santinho Coppo, meu patrocinador, junto com os amigos. “-Caiu do cavalo, Orlando? Você atentou para o que falou na transmissão do jogo da tarde?” Eu disse: “-Ai, ai, ai, Santinho, o que fiz desta vez?” Ele respondeu: “-Você disse ‘Não mija aí, Naquinho!’, com o microfone aberto, e foi muito engraçado.” Por anos e anos, Santinho contou esse fato para Mogi Mirim inteira. De minha parte, cheguei a pensar que Santinho estava me dando o troco pela minha falha durante um programa que levava o seu patrocínio. Os antigos mogimirianos passaram essa história para seus filhos, que até hoje vêm me falar dessa anedota. À época, tudo terminou em risadas e nada mais.

Manelão Jornaleiro, que fornecia as notícias para Pintaca ler toda noite aos ouvintes do SAF “Vitória”.

1946 - Na cabine improvisada no Estádio “Vail Chaves”: Ulisses (irmão do Pintaca, residente em Mogi Guaçu), o comentarista Álvaro Miranda e Pintaca ao microfone.