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Capítulo 36

Idéia maluca, vinda de um apaixonado! Casamento e guerra não combinam, nem ora nem outrora. E eu pedi a Zulmira em casamento! Expliquei o plano para a namorada, para os pais dela. Seria tudo em segredo, apenas o cartório, o padre e o promotor Doutor Paulo Teixeira de Camargo é que saberiam. Monsenhor Nardim celebraria a cerimônia apenas com a presença dos noivos, dos pais e do casal de padrinhos. E só. A minha família foi contra, avisando-me que, certamente, isso iria dar cadeia e anunciou: “-Ninguém daqui vai comparecer ao seu casamento. Não seremos coniventes com essa loucura.” Voltei para Lins e procurei o Cabo Pedro, enfermeiro, que estava noivo da afilhada do Comandante Danton Benitez, que a havia adotado quando criança e conspiramos: “-Nós marcaremos o casamento no mesmo dia e hora. Você casa aqui em Lins e eu caso em Mogi Mirim. Após um mês, apresentamos as certidões juntas ao comando. Isso dá cadeia, mas eles não vão prender você, porque casou com a filha do patrão. Por tabela, nem a mim. O máximo que pegaremos é oito dias de grade, fazendo serviço noturno.”

 

Cabo Pedro me olhou e disse, entre amedrontado e feliz: “-Que leve a breca! Cadeia não foi feita pra cachorro. Combinado!” Na vila dos militares havia uma casa vaga. Com a ajuda do Cabo Birita, consegui-a para mim. Pedi à mãe que me mandasse o dinheiro dos Correios para a mobília: cama, guarda-roupas e toucador, utensílios e móveis de cozinha. Consegui licença para ir até Mogi Mirim e em 18 de fevereiro de 1944, às 10 horas, sábado de Carnaval, casei-me, contra a vontade de minha família. Embarcamos para Campinas, tomamos o trem para Rio Claro, Bauru e Lins. Foi um alvoroço quando cheguei à vila militar. Procurei Cabo Pedro, trocamos experiências, ele também havia se casado com a filha adotiva do Comandante Danton Braga Benitez. Combinamos qual seria o procedimento daqui por diante: apresentaríamos ao mesmo tempo as certidões de casamento ao Capitão Barroso, que ficou boquiaberto: “-Agora é que a porca torceu o rabo! Vocês são estúpidos? Esqueceram que estamos em guerra? Vou entregar as certidões de casamento para o Major, que vai reunir a Corte e julgar os atos de vocês. Ele vai ficar doido!” Fomos até o Major, que nos questionou e fez pressão. Eu respondi: “-Lá em Mogi Mirim todos são meus amigos, do Padre ao Promotor, por conta das festas beneficentes que eu organizei por lá. O senhor conhece o meu trabalho aqui no Batalhão. Lá em Mogi Mirim não é diferente, sou um cidadão responsável e voltado às atividades beneficentes, à justiça e à imprensa. Por isso, fiz muitos amigos. O meu Comandante tem a força dos artigos legais em mãos: se transgredi o regulamento militar, submeto-me à expulsão. Minha mulher está sozinha aqui, longe dos parentes. Assumo e responsabilizo-me por tudo.” O Major, o Capitão e o Tenente olharam entre si, silêncio sepulcral, o Tenente pediu a palavra: “-O 2443 tem feito muito em benefício do Batalhão e de toda a corporação. Vamos estudar o regimento. Amanhã, o caso terá solução.” O Major estava enrolado, diante dele estavam sob julgamento eu, o organizador dos espetáculos de Lins e Tupã, e o seu genro. No dia seguinte, em recinto fechado, com a presença do Comandante, Subcomandante, Tenente e um Cabo-datilógrafo, deu-se o veredicto: “-Cabo Pedro, Soldado Orlando, os senhores transgrediram gravemente o regulamento militar. Devido ao ótimo comportamento e iniciativa nos projetos, resolvemos aplicar-lhes a pena mínima, dez dias de prisão, trabalhando em serviços internos. Passarão a dormir na sala de entrada do quartel. Vocês poderiam ser integrados na lista de soldados que vão ao Rio de Janeiro integrar a FEB, mas não o serão. Vocês têm até as 17 horas para comunicar o fato às suas esposas e voltem para cá. O programa será: alvorada às 5h30, serviço no quartel, silêncio às 22 horas e ambos dormirão aqui. Podem se retirar.” Acontece que eu e o Cabo resolvemos dormir com nossas esposas, na vila, em algumas noites de nosso período de castigo e acabou dando tudo muito certo. Por Deus e pela vista grossa de muitos.

1986 - Rosana ao lado de Monsenhor José Nardim, falecido dia 27 de julho último em Piracicaba, aos 93. Organizador das paróquias, capelas e do Seminário da cidade, fundador do Educandário N. Sª do Carmo e do Dispensário N. Sª das Graças. Líder católico de Mogi Mirim e amigo de nossa família, esteve sempre presente nos momentos importantes da vida do Pintaca.