Apresentamo-nos ao Comandante do 5º Regimento da Infantaria de Lorena e, dali em diante, estávamos obrigados a seguir as normas do Exército Brasileiro. Pela manhã, o corneteiro tocou a alvorada. Levantamo-nos e vestimos roupa de ginástica. Uma hora depois, suávamos em bicas pelo pesado treinamento e tomamos banho frio. Retornamos ao alojamento e vestimos a farda completa, mais mochila e fuzil. Nossos nomes transformaram-se nos números que recebemos no pátio: eu me chamava 2443, não mais Orlando. A milhar do cavalo era a minha identificação, esse animal sofrido. “Quanta ironia!” – pensei, vaticinando o que me esperava.
“Depois do café, preparem-se para o exercício. Parem de se queixar do tamanho da farda, quem quiser elegância, procure o alfaiate para lhes costurar sob medida. Aqui na tropa, o destino é incerto. Quem manda é o Subcomandante e procurem dormir bem para estarem dispostos todos os dias.” - era o Comandante, dando as instruções iniciais. Eu perguntei para onde iríamos e o Comandante me respondeu: “-Para um grande hotel cinco estrelas, quarto de luxo, uma bela mulher te esperando, soldado.” Calei-me, obediente. Depois do jantar, não nos deram a ordem para sair. Acordei muito cedo, quis sair, mas a sentinela não autorizou. Tomamos café e organizamos o embarque para... sabemos lá, menos para aquele hotel de luxo. O Oficial nos informou: “-Não é viagem de recreio. Formarão um novo batalhão, que pertencerá a este Regimento. Só posso adiantar que essa cidade tem casas de madeira, terra nas ruas e fica do outro lado do Estado. Não se esqueçam que estamos em guerra, um deslize e enfrentarão a corte marcial. Queixas de moças geram penas drásticas. Os civis nos tratam como “bodes” e comentam “segurem em casa suas cabritas, que os bodes vêm vindo”. Desmintam isso, vivam em ordem e com respeito. Boa viagem.” Senti-me como um condenado à forca aguardando abrir o cadafalso. Saímos da estação ferroviária de Lorena, num grande comboio. Nos vagões de trás, pudemos ver o embarque de cavalos, canhões, caixas de metralhadoras e outras caixas de conteúdo indecifrável, mas presumível. Aurélio Bueno, indignado, chocado, dizia, inconsolável: “- Que mal fiz a Deus para estar aqui?!”
Pintaca registrou os fatos com uma máquina sanfonada, que era disposta sobre um tripé e um tijolo, já com o devido enquadramento. Nesta foto, ele segura a cordinha do disparo da máquina. É o da direita, em pé.
Essa outra foto, tirada em dezembro de 1943, Pintaca, Aurélio Bueno e Orlando Cestaro, de Itapira, irmão de Liney Quintino, saboreando uvas.