Capítulo 21

Publicado em Sábado, 12 Abril 2008 12:51
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No ano de 1936, uma das agremiações católicas de maior respeito era a Congregação Mariana da Matriz de São José, que era constituída por dezenas de moços, que usavam largas fitas com as cores azul e branca. Tinham lugar de honra nas missas, procissões e outros eventos religiosos, já que, para serem aceitos como membros, deveriam ter comportamento exemplar; as inscrições eram avaliadas pela análise da vida pregressa do pleiteante. Coisa séria essa triagem, portanto.

 

O Presidente era meu tio Augusto Bronzatto, sob a direção de Monsenhor Moysés Nora, religioso muito severo, oriundo de Portugal e intolerante às outras religiões, mas respeitoso ao Juca Andrade, o espírita. Ele participava das reuniões, especialmente daquelas que arrecadavam a mensalidade de um mil réis. Eu era filho único nessa época. Certo dia, tio Augusto pediu permissão à mãe para me levar à reunião e minha mãe assentiu, felicíssima e orgulhosa em ver seu filho aprovado como membro de tão respeitosa congregação católica. Fui, acompanhado de outro congregado. Iniciada a reunião, o Reverendíssimo Nora determinou, primeiramente, que fossem arrecadadas as mensalidades. Ao cobrar um congregado, este explicou que havia deixado o dinheiro em casa, mas que o traria na próxima reunião, ou antes, pagando diretamente ao tesoureiro. Nora levantou-se e disse: “-O moço sabe muito bem: venceu o mês, tem que estar tudo pago. Fica aqui só quem está com a mensalidade em dia.” Defendeu-se o amigo: “-Esqueci-me. Pagarei ao mariano-tesoureiro amanhã mesmo. Irei até o serviço dele e efetuarei o pagamento.” Determinou Nora: “-Saia. Não podemos abrir precedentes.” Meu tio tentou interceder, ofereceu-se para ir buscar o dinheiro imediatamente, mas não adiantou, Monsenhor Nora não aceitava palpites. O moço levantou-se de seu banco, humilhado, saiu da Igreja para sentar-se junto à cascata e ali ficou às lágrimas. Eu acompanhei o jovem e fiquei com ele por lá. Meu tio veio até nós e perguntou-me por que eu também havia deixado a reunião, se Nora só havia se referido ao outro moço. “- Só a ele não, ele se referiu a todos nós. E se acontecer comigo? Não somos ricos, meu tio. Se eu for cobrado desse jeito, boto fogo na saia desse Padre! Jamais vou querer pertencer aos marianos, se se submetem a esse jeito de tratamento.” Fui para casa, contei o fato para a mãe, que me deu razão. Meu tio veio, mais tarde, para dizer-lhe que eu havia abandonado a reunião da Congregação Mariana. Minha mãe estava furiosa com o intolerante Nora: “-Aquele Padre respira dinheiro. Orlando decide o que quer fazer. Por mim, não precisa mais freqüentar essa reunião.” E nunca mais apareci por lá, embora sempre reconhecesse a importância da Congregação para a vida católica mogimiriana. Mas teve outro senão que só fez ratificar minhas impressões sobre aquele líder religioso. Eu e meus pais tínhamos ido ao cinema naquela noite. Saímos do cinema e subimos a rua XV de Novembro. O Padre Nora tinha encerrado a missa do Carmo, nos encontrou e disse, oferecendo a caneta-tinteiro: “-Olá, meus caros amigos. Tenho aqui uma lista da festa do Carmo, vamos assiná-la?” E cutucou: “-Vejam lá o quanto vão assinar em doação, amigos, vejam lá!” “-Vamos doar vinte mil réis.” - disse minha mãe, ao que retrucou o Padre Nora: “-Com vinte mil réis, não sujo a minha lista.” “-Se nosso dinheiro não serve para a sua festa, servirá ainda menos para o senhor, Padre. Vamos para casa!” – disse minha mãe, devolvendo-lhe a lista e a caneta. Monsenhor Nora ficou parado, sem expediente, embasbacado, a lista e a caneta nas mãos. O fato é que o pessoal de casa estava aborrecido com ele, embora reconhecesse a sua influência na Cidade Simpatia, especialmente naquele episódio da vinda de escola pública para cá, fato que o contrariou muito.  Mas essa é outra historia.

Monsenhor Moysés Nora. Fonte: Anuário de Mogi Mirim, 1951.

CAPÍTULO 22

No ano de 1936, uma das agremiações católicas de maior respeito era a Congregação Mariana da Matriz de São José, que era constituída por dezenas de moços, que usavam largas fitas com as cores azul e branca. Tinham lugar de honra nas missas, procissões e outros eventos religiosos, já que, para serem aceitos como membros, deveriam ter comportamento exemplar; as inscrições eram avaliadas pela análise da vida pregressa do pleiteante. Coisa séria essa triagem, portanto.

O Presidente era meu tio Augusto Bronzatto, sob a direção de Monsenhor Moysés Nora, religioso muito severo, oriundo de Portugal e intolerante às outras religiões, mas respeitoso ao Juca Andrade, o espírita. Ele participava das reuniões, especialmente daquelas que arrecadavam a mensalidade de um mil réis.

Eu era filho único nessa época. Certo dia, tio Augusto pediu permissão à mãe para me levar à reunião e minha mãe assentiu, felicíssima e orgulhosa em ver seu filho aprovado como membro de tão respeitosa congregação católica. Fui, acompanhado de outro congregado. Iniciada a reunião, o Reverendíssimo Nora determinou, primeiramente, que fossem arrecadadas as mensalidades. Ao cobrar um congregado, este explicou que havia deixado o dinheiro em casa, mas que o traria na próxima reunião, ou antes, pagando diretamente ao tesoureiro.

Nora levantou-se e disse: “-O moço sabe muito bem: venceu o mês, tem que estar tudo pago. Fica aqui só quem está com a mensalidade em dia.” Defendeu-se o amigo: “-Esqueci-me. Pagarei ao mariano-tesoureiro amanhã mesmo. Irei até o serviço dele e efetuarei o pagamento.” Determinou Nora: “-Saia. Não podemos abrir precedentes.

Meu tio tentou interceder, ofereceu-se para ir buscar o dinheiro imediatamente, mas não adiantou, Monsenhor Nora não aceitava palpites. O moço levantou-se de seu banco, humilhado, saiu da Igreja para sentar-se junto à cascata e ali ficou às lágrimas. Eu acompanhei o jovem e fiquei com ele por lá. Meu tio veio até nós e perguntou-me por que eu também havia deixado a reunião, se Nora só havia se referido ao outro moço. “- Só a ele não, ele se referiu a todos nós. E se acontecer comigo? Não somos ricos, meu tio. Se eu for cobrado desse jeito, boto fogo na saia desse Padre! Jamais vou querer pertencer aos marianos, se se submetem a esse jeito de tratamento.”

Fui para casa, contei o fato para a mãe, que me deu razão. Meu tio veio, mais tarde, para dizer-lhe que eu havia abandonado a reunião da Congregação Mariana. Minha mãe estava furiosa com o intolerante Nora: “-Aquele Padre respira dinheiro. Orlando decide o que quer fazer. Por mim, não precisa mais freqüentar essa reunião.

E nunca mais apareci por lá, embora sempre reconhecesse a importância da Congregação para a vida católica mogimiriana.

Mas teve outro senão que só fez ratificar minhas impressões sobre aquele líder religioso. Eu e meus pais tínhamos ido ao cinema naquela noite. Saímos do cinema e subimos a rua XV de Novembro. O Padre Nora tinha encerrado a missa do Carmo, nos encontrou e disse, oferecendo a caneta-tinteiro: “-Olá, meus caros amigos. Tenho aqui uma lista da festa do Carmo, vamos assiná-la?” E cutucou: “-Vejam lá o quanto vão assinar em doação, amigos, vejam lá!

-Vamos doar vinte mil réis.” - disse minha mãe, ao que retrucou o Padre Nora: “-Com vinte mil réis, não sujo a minha lista.

“-Se nosso dinheiro não serve para a sua festa, servirá ainda menos para o senhor, Padre. Vamos para casa!” – disse minha mãe, devolvendo-lhe a lista e a caneta.

Monsenhor Nora ficou parado, sem expediente, embasbacado, a lista e a caneta nas mãos. O fato é que o pessoal de casa estava aborrecido com ele, embora reconhecesse a sua influência na Cidade Simpatia, especialmente naquele episódio da vinda de escola pública para cá, fato que o contrariou muito. Mas essa é outra historia.

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Monsenhor Moysés Nora. Fonte: Anuário de Mogi Mirim, 1951.