Capítulo 12

Publicado em Sábado, 09 Fevereiro 2008 23:34
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Na época em que tinha dez anos, “ninguém corria e todos chegavam a tempo”. Mais alguns anos e vi estourar a Revolução de 32, quando veio do sul um baixinho, fardado de general, de nome Getúlio Vargas, que comandou uma ditadura de quinze anos. Os demônios estavam soltos. Soubemos muitas ocorrências dos soldados paulistas na cidade de Mogi Mirim, inclusive que molestavam sexualmente as moças com as quais namoravam. Os pais haviam encaminhado reclamação aos oficiais, os quais avisavam para “tomar conta das cabras, pois os bodes estavam soltos.” Que fala decepcionante para todos!

 

Houve uma história: uma moça trabalhava como doméstica em casa de família. À noitinha, quando retornava para casa, foi abordada por um soldado, que a estuprou. Ela contou o fato aos pais e aos patrões, que foram até o oficial para registrar a queixa. O Comandante anotou os dados e pediu que voltassem no dia seguinte. Reunidos os soldados acantonados no Grupo “Coronel Venâncio”, a moça chegou acompanhada dos pais e apontou o seu estuprador. O soldado foi retirado das fileiras, submeteu-se ao inquérito diante da moça, e confessou que a havia deflorado, contra a vontade dela. Diante disso, o Comandante mandou a tropa se reunir novamente e, diante de todos, leu o termo de prisão do soldado. Soube-se depois que o soldado foi fuzilado. A repercussão foi ótima, pois, enquanto os soldados estiveram na cidade, não mais se ouviu falar em atentado sexual. As gravidezes foram devidamente abortadas pelos médicos e parteiras de plantão, para alívio das moças, tristeza das famílias mogimirianas e completo descaso dos soldados paulistas.

Na fase da Revolução de 32, as quintas e aos domingos, a Casa Cardona e “A Comarca” publicavam uma lista de doadores de jóias, peças de ouro e grandes riquezas “para o bem de São Paulo”. Tudo deveria estar centralizado na capital paulista, mas, na verdade, muita gente se enriqueceu com essa campanha, dando calotes e fraudando os crédulos. Mogi Mirim não fugiu à regra. Um senhor veio de São Paulo, alugou grande sala no centro e montou uma loja com vasto mostruário de relógios e jóias, que vendeu bem barato, esgotando logo o estoque. Sumiu da mesma forma que apareceu, deixando algumas dívidas nos bares da cidade. Foi mais um que enricou com a Revolução Paulista de 32, que estava perdida. Os militares desocuparam os grupos escolares e tudo voltou ao normal. Era o ano de 1933.

1932 – Soldados paulistas e moçoilas engajadas na causa.

1934: Na foto, o Senhor José Brandão, pai de Carlitos, Flávio e o amigo economista Pedro de Paulo, e o anúncio em “A Comarca” do melhor produto de seu armazém: o vinho português.