Capítulo 11

Publicado em Sábado, 02 Fevereiro 2008 23:28
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A Casa Cardona imprimia convites de casamentos e batizados, de festas e bailes, cartões de visita e talonários, pois dispunha de completa gráfica, uma das bem-aparelhadas da região da baixa mogiana. Na Casa Cardona, eu era uma espécie de boy de recados, levava as contas dos fregueses, entregando-as em domicílio e fazendo cobranças. Minha mãe confeccionava roupas para homens e mulheres, ternos completos e vestidos da mais moderna linhagem. À noite, eu a ajudava na costura, cerzindo as casas para os muitos botões que pregava nas camisas, paletós e calças. Vitalina era costureira de mão-cheia!

 

Na esquina da Praça Rui Barbosa, o Theatro São José servia à exibição de grandes espetáculos teatrais oriundos de Campinas e São Paulo, que por aqui passavam e ficavam por dois dias, após se apresentarem em Poços de Caldas. Tínhamos novidades, sempre!  Levantava-se a tela do cine e ficava exposto o amplo e belíssimo palco. Além dos cenários das companhias teatrais, havia os do Senhor João Judas, que, já disse, de bobo não tinha nada, os alugava às companhias. Eu adorava ajudá-lo a pendurar os panos nas cordas das carretilhas, que faziam subir os cenários, serviço que exigia esforço, esmero e perfeição, pois nada podia dar errado durante o espetáculo. Ouvia os artistas dizerem que a praça de Mogi Mirim era “boa de ganhar dinheiro”. Eles não sabiam que recebíamos o reforço dos itapirenses, guaçuanos, jaguariunenses e possenses, que vinham prestigiar os espetáculos e otimizavam esse mercado, tornando Mogi Mirim interessante para a recepção das grandes peças teatrais. Ainda não havia surgido o cinema Scope, assim, era só remover a tela para que o palco se mostrasse enorme, pronto para as encenações. Quando não havia peças teatrais, o palco era adequado para exibir lutas de boxe. Recordo a exibição dos grandes seriados de 24 capítulos - dois por semana - que atraíam grande público para assistir ao Flash Gordon, Ray Corrigan, Ken Maynard, Tom Tyler, Hopalong Cassidy, Tim MacCoy, o rei do gatilho, Art Acord, Buck Jones e Theda Bara, a Cleópatra de 1917, do cinema mudo. Claudette Colbert veio a ser a primeira Cleópatra do cinema falado, em 1934. Lembramos do Harold Lloyd em For Heaven's Sake, num corre-corre desenfreado e atraindo para si todos os bandidos e policiais da cidade. Vi no matinê o filme A Sailor-Made Man e lembro da seqüência: o cenário era o barco pesqueiro, que serviu de esconderijo às jóias dos ladrões. Harold, o marinheiro, encontrou o saco com as jóias e o escondeu numa portinhola e, apurado, procurou um esconderijo para si, não deu tempo, apareceu a mocinha para ficar com ele, o ladrão os perseguia, para que lhe devolvessem as jóias. Harold e ela conseguiram escapar do lugarejo onde estavam, esconderam-se noutro lugar. O ladrão os procurava, prestes a encontrá-los; a platéia ficou entretida, imóvel, silente, aguardando o desfecho da cena. O ladrão espiou pela fresta da caixa e os viu, ficou irado quando viu Harold com as jóias e preparou um cacete poderoso para dar pancada em ambos. O casal saiu da caixa, pé ante pé, procurando acessar a escada que dava acesso ao cais; o ladrão postou o cacete para agredi-los. A platéia acompanhava, num silêncio sepulcral e eu não agüentei: “- Olhem o ladrão atrás de vocês!” – gritei ao Harold e à atriz. O prédio quase veio abaixo com o estouro das gargalhadas da platéia.  Minha mãe me deu um chacoalhão: “- Cale-se, moleque bobo. Não vê que é tudo mentira?” Que vergonha! Restou-me encolher na cadeira e conter meus impulsos. Tinha nove anos.

1930 – Luta de Boxe no palco do Cine-Theatro São José. Não foi possível identificar o boxeador, infelizmente.

1947 - A coluna homenageia a assídua leitora Fanny Maretti.

Aos domingos, ao término da Missa das 10, as moças se reuniam na Praça Floriano Peixoto.

Alice Brito, Maria Eliza Zanovelo, Eliany Mello do Prado, Fanny Maretti, duas garotas da sociedade guaçuana e Nair Pelacani.

Vemos ao fundo, a casa do Quinho e a Igreja do Carmo. (Foto D. J. Formenti).