Capítulo 6

Publicado em Sábado, 22 Dezembro 2007 11:57
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No tempo do cinema mudo, na frente da tela, no chamado “buraco da orquestra”, o Maestro Napoleão Portiolli conduzia uma orquestra formada por músicos da cidade. Quando o filme era dramático, ele tocava valsas, canções e fantasias, todos grandes sucessos da época; quando era comédia ou policial, ouviam-se chorinhos, sambas e fox-trot.  Meia hora antes da projeção, a orquestra de Napoleão Portiolli, pai da saudosa Iolanda, avô de José Maria André, já dava uma canja para aqueles que chegavam mais cedo. 

 

Agradeço a Deus por ter vivido o ano de 1926, com sete anos. Assim como eu, os oitentões se lembram de tudo isso com graça e saudade; os adolescentes de hoje jamais saberão o que de mais gostosas e criativas eram as sessões de cinema de outrora. Os cines de hoje sofrem algumas das conseqüências do vídeo-cassete e do DVD e lutam para apresentar os lançamentos junto com a Capital, refletindo tal conquista no preço dos ingressos. E mais, assim como alguns filmes de classe B vão direto para as locadoras, alguns dos mais famosos podem ser lá encontrados também, após quatro meses. Lembro-me de ter assistido ao “King Kong” em 1939, seis anos após a sua filmagem. Um certo senhor construiu um imenso gorila de três metros de armação de arame, coberto com papel imitando o couro e pelos. Naquela tarde do lançamento do filme, eu e João Judas o amarramos na cabine de uma Camionete Ford-29, alugada pela direção do Cine, e lá fomos nós - a “Criatura” e seus reles descendentes - fazer a promoção do filme: eu, tocando um tambor e João Judas repicando a sua caixinha da Banda. O imenso macaco teve um final infeliz, sinto contar-lhes.  Quando eu e João Judas tínhamos já percorrido metade do roteiro traçado, centro e alguns bairros, veio tempestade suficiente para derreter o papel crepon. Porém, como o show não podia parar, aquele mesmo senhor mandou recobrir o gorila e postou-o na calçada, junto à parede e defronte o cinema, para cumprir a função promocional até o fim das sessões. Do outro lado da calçada, a Corporação Musical União dos Operários, sob a batuta do Maestro Leopoldo Ladeira, também cumpria a seu papel, dando início ao seu programa no coreto. A reza sempre terminava ao escurecer, perto das 19 horas, quando a praça Rui Barbosa ficava repleta de famílias mogimirianas. Era a ocasião para o footing: os moços caminhando no sentido anti-horário, as moças, ao contrário, iam pela direita. Eram áureos tempos.

Orquestra de Napoleão Portiolli (de branco, ao centro) - foto da serenata de 1º.1.1931. Ricardo Coppo (órgão), Alexandrão Zenaro, tio de Walter Zenaro (rabecão), Nelson Portiolli, sobrinho de Napoleão (bateria) e o garoto Valter Portiolli, irmão de Nelson.

Banda União dos Operários, 1926. A maioria dos músicos era da família Portiolli. As meninas de branco, ao lado, são Dona Carmita Hernandes, que se casou com Líbano de Souza e Dona Egle Portiolli Zorzetto, que se casou com Aquino Zorzetto.