Capítulo 2

Publicado em Sábado, 24 Novembro 2007 11:34
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A casa onde morei é hoje a residência dos Motas. Mota foi um português que, quando chegou ao Brasil, foi morar no prédio que abrigava o transmissor da Rádio Cultura, na rua Itororó, Bairro Tucura. Depois, com o seu trabalho, adquiriu a casa e para lá se mudou com sua mulher, para criar os patos e galinhas que eram vendidos na praça, além da máquina de beneficiar arroz. Nessa casa, no quintal da cozinha estava plantada uma mangueira e foi sob o pé dessa frondosa árvore que enterraram o meu umbigo. Sou aterradense e me orgulho muito disso. João, meu pai, trabalhava como pedreiro com a turma do construtor Antônio Mói. Este também sofreu as conseqüências da fuga do Presidente Washington Luiz, já que as construções da cidade pararam. Nesses tempos difíceis de 1924, passamos a viver apenas com o dinheiro advindo dos hortifruti.

 

Enfim, deu-se o início da construção do primeiro prédio do Colégio Imaculada Conceição - a pequena igreja e o primeiro alojamento. Aos seis anos, saía todos os dias do Aterrado, após o almoço, e me dirigia para o jardim da infância do Colégio Imaculada. Meu célebre colega de classe era Nagib Chaib. Com o falecimento de meu avô em 1925, deu-se a venda da chácara e a aquisição de um imóvel na cidade. Trata-se justamente da casa da esquina das ruas José Bonifácio e Rosário, defronte a praça do Colégio, onde ficava a Casa da Força da Empresa, um castelinho medieval com torres, janelas com grades e uma porta bem reforçada para evitar acidentes com os transformadores, os quais recebiam a energia da Cachoeira e distribuía eletricidade pela cidade inteira. Foi na praça do Colégio que joguei muito futebol na terra batida. Lembro-me um belo dia, estava eu sentado no degrau da frente de minha casa. Aquela rua era passagem para quem ia a Mogi Guaçu, Espírito Santo do Pinhal, São João da Boa Vista, Andradas e Poços de Caldas. Então, passou por lá um carro elegante, que estacionou defronte a minha casa. Um senhor que estava à direita do chofer me perguntou: “Ó garoto, é por aqui mesmo que se vai para Poços de Caldas?” Respondi, sinceramente: “É, sim senhor. O senhor passe pelo Cubatão e siga adiante.” A senhora do banco de trás, irada, pôs a cabeça para fora do carro e disse: “Moleque malcriado! Só sabe falar palavrões!” Nesse instante, tendo ouvido a conversa, minha mãe deixou sua costura e veio à frente da casa tomar pé da situação. A mulher, indignada, pediu à minha mãe que me desse um corretivo. Esta, por sua vez, explicou que a passagem para Poços de Caldas tinha que ser sob os eucaliptos, no bairro Cubatão, e desculpou-se pelo filho, que não soube se expressar claramente. A mulher finalizou: “Está bem, mas não custa ensinar melhor o seu filho. Toque o carro em frente, motorista.” Minha mãe ordenou que eu entrasse. Assim que entrei, tomei um forte tapa na cabeça. “Isso é para você aprender a responder melhor às pessoas.” Indignado, fui para o quintal junto ao meu estimado cão Piloto e o abracei. Piloto me entendeu e me acalmou, lambendo o meu rosto.

(Foto de 1925 - Castelinho de força, Igreja do Colégio Imaculada. Atual Praça da Bandeira.)