Capítulo 62 – O elemento surpresa

Publicado em Sábado, 15 Agosto 2009 20:18
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Um fato inesperado ocorreu: um belo dia, estava no Cine São José, quando me apareceu um homem, de uns trinta e poucos anos, dizendo ser meu filho. “Como assim?!” - fiquei desconcertado. Dona Gercina, funcionária do cinema, presenciou a conversa e abriu a porta para que ele viesse me ver, ao final da sessão de cinema.

 

Reunimo-nos em meu escritório e explicou-me ele que sua mãe havia lhe falado apenas há pouco sobre uma aventura que teve comigo, e que, àquela época, estava noiva, de casamento marcado. Assim, não lhe convinha tornar pública a gravidez e preferiu deixar o tempo passar. Deu-se o enlace nupcial com o noivo e dezesseis outros filhos frutificaram. Todos moreníssimos! Diante da diferença de fisionomia dos irmãos, o belo moço de cabelos louro-avermelhados e belos olhos azuis se dignou a perguntar e investigar por aí sobre sua paternidade, quando a própria mãe, percebendo a movimentação, resolveu quebrar o silêncio e lhe contar alguma coisa sobre a nebulosa história, e que, por ela, nunca, jamais, teria vindo à tona. Eu ouvia tudo com atenção e, boquiaberto, fui puxando pela memória alguns fatos. Lembrei-me da época em que Zulmira me deixou, levando embora meus preciosos filhos e todos os bens para São Paulo, ocasião em que me hospedei por três anos na pensão do José Mineiro, no andar de cima do Bar ao Ponto (Veja Capítulo 55, publicado em 16.5.09). Na mesma pensão, me apareceu uma simpática moça recém-vinda do Paraná para se estabelecer no Bairro do Tucura e tivemos um affair. Eu estava sozinho e separado, talvez não tivesse conhecimento sobre o noivado dela, ou até soubesse... já não me lembro mais. Aquele moço ia me contando o pouco que sua mãe lhe disse e, muito nervoso, disse que resolveu apresentar-se como meu filho, porque se sentia honrado em sê-lo. Explicou que desde 1973 trabalhava na Monroe Auto Peças como mecânico de manutenção hidráulica e pneumática e que havia feito vários cursos técnicos de aperfeiçoamento. Seus olhos brilharam quando falou sobre sua família: a esposa Selma e os quatro filhos. Por fim, disse que passava defronte ao cinema todos os dias e não reunia coragem suficiente para me abordar. Até hoje. Aquilo me desmontou! De desconcertado, passei a orgulhoso. Muitos outros encontros se seguiram e eu pude conhecer melhor este meu suposto filho, o José Roberto Pedroni, e também Selma e os filhos. Eu não queria constranger ninguém com a certidão pelo exame de DNA, pois que a probabilidade de ele realmente ser meu filho era enorme, tanto quanto o tamanho do problema que se me apresentava: como é que eu ia comunicar o fato à minha esposa, Odete, e aos meus outros filhos? Senti-me infeliz em pensar que isso poderia abalar a confiança que todos tinham em mim. Pesei os fatos: minhas meninas são maleáveis, raciocinam rápido e entendem qualquer situação, desde que recebam explicações convincentes. Odete me ama e saberá compreender tudo. Será?  Circunstâncias e possibilidades várias... Bem, decidi lhes dizer a verdade e nada mais. Reportei a todos a curiosa história e Odete e as meninas me entenderam e me respeitaram. Com a anuência de Odete, levei José Roberto Pedroni até minha casa e deu-se o esperado: uma reunião feliz e cheia de arguições com respostas. Infelizmente, perdemos José Roberto Pedroni, meu querido filho, em 27 de fevereiro de 1997. Um câncer o acometeu e, após meses de árdua luta, o matou aos 40 anos. Como é triste para um pai ver o seu filho partir! Tivemos pouco tempo de convivência, mas a intensidade de nossa relação foi suficiente para deixar-me aqui, arrasado de saudade. Apenas 40 anos, ainda um menino, o Zé Roberto...

Orlando Bronzatto, seu filho José Roberto Pedroni e Odete, na residência de José Roberto, em 1989.