Capítulo 57

Publicado em Sábado, 13 Junho 2009 19:55
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Em Conchal, tinha feito bons amigos. Estava lá trabalhando desde 1955 e minha amizade com o Padre Alberto Velloni me abriu uma porta e oportunidade de negócios. Aproveitei a minha experiência com o SAF “Vitória”, da Praça Rui Barbosa de Mogi Mirim e implantei o mesmo sistema em Conchal, utilizando-me do prédio da Igreja e também do Salão Paroquial. Aristides Trentin, um grande amigo mogimiriano, era um comerciante excelente e vislumbrou a oportunidade de vender televisores em preto & branco para os conchalenses. Com isso, o serviço de alto-falantes da praça capengou, literalmente, porque os moçoilos de famílias abastadas não saíam mais de casa.

 

Eu havia conhecido uma moça interessantíssima, que fazia footing aos finais de semana na praça central, junto com as irmãs e primos, e, para ela, eu oferecia os tangos de Carlos Gardel, pelo alto-falante. Músicas especiais para uma linda mulher. A moça era a filha caçula de tradicional família conchalense – os Megiattos - e eu já sabia tudo sobre ela. A jovem havia terminado o namoro com certo espanhol, homem ciumento dos infernos. Quando o avisaram de meu interesse por ela, veio ter comigo, valente, com mais dois homens, no saguão do meu Cine Paratodos. Veio armado. Um amigo percebeu o caldo grosso, me avisou e o quebra-quebra começou no hall do cinema. Segura daqui, segura dali, eu subi à cabine do cinema, desci por outra escada, acessei a rua, apanhei meu carro, dei a volta por trás da cidade e voei para Mogi Mirim, pois tinha compromisso: eu precisava transmitir uma festa-baile no Clube Recreativo. No caminho para Mogi Mirim, pensei em tudo o que havia ocorrido. Eu fui me interessar logo pela filha caçula de agricultores humildes, sérios e trabalhadores. Logicamente, eles desejavam para ela um casamento com pompa e circunstância e jamais aceitariam a condição de estado civil de um homem como eu: desquitado. Não podia esquecer que havia um espanhol rico na disputa, somando dois pontos negativos para mim. Em Mogi Mirim, estacionei defronte ao Clube Recreativo, desci os transmissores e fiz o meu trabalho. Passei a noite no meu quarto da pensão e, às sete da manhã do outro dia transmiti a missa, direto da Igreja Matriz de São José. Que sufoco! Eu trabalhava demais, minha vida era uma correria sem fim. Como era domingo, almocei na pensão e fui para Conchal, à tarde. Às 20 horas projetei a sessão de cinema, sem que ninguém mais me molestasse, mas me avisaram: “Pintaca, cuidado! Esse espanhol é de amargar!” Após a sessão de cinema, deparei-me com os amigos do espanhol briguento. Alguns residiam em Conchal, outros tinham terras, exploravam a agricultura e por lá sempre estavam. Como de praxe, tranquei o cinema e fui ao bar, no mesmo prédio do cinema, para lanchar, pois ainda retornaria para Mogi Mirim na mesma noite. Sentei-me à mesa de costume, cumprimentei os empregados do bar e os amigos do espanhol me encararam. Fiz que não os vi, pedi meu lanche e meu café. Meu carro estava estacionado defronte o cinema. Um dos espanhóis começou a cantar uma belíssima música de José Luiz Rodriguez “Camino verde”, assim: “Hoy he vuelto a pasar por aquel camino verde que por el valle se pierde em mi triste soledad...”  Como cantava mal! E alto, para Conchal toda ouvir. Coisa de bêbado. Outro deles veio à minha mesa: “Meu caro Orlando, estoy mui descontente com o ocorrido. Queira relevar, meu primo estava enciumado.” Eu já fui emendando, com ares de amigo: “Seu primo teve suas razões. Afinal, ele namorou aquela moça belíssima. Por que não se casou com ela logo de uma vez?” O primo se retraiu: “Problemas, amigo. Ele não pode se casar. Dê o caso por olvidado, muchas gracias, amigo.” Pensei cá com os botões: “Amigo que é amigo não me põe em confusão. Esse aí não é amigo, não senhor!” Tempos incertos, mas de muita expectativa.

Pintaca e o senhor Aristides Trentin, em foto de julho de 2004.

Prédio da AEC, onde se vê o Cine Paratodos, na segunda porta lateral e o Bar e Sorveteria Paratodos, do lado oposto.