Capítulo 55

Publicado em Sábado, 16 Maio 2009 14:40
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Antônio Carlos de Abreu Sampaio foi vítima de segundo enfarto em 1976 e fui à Santa Casa para visitá-lo. Percebi que ele não estava bem. Lamentei o estado em que se encontrava o meu sócio, mas nada podia ser feito por ele. Saí da Irmandade de Santa Casa de Misericórdia muito chateado e fui até Itapira, pois resolvi atender os médicos- diretores da Clínica Santa Fé, onde exibia filmes ao pacientes em algumas tardes da semana. Pelas viagens a São Paulo, estreitei o relacionamento com os responsáveis pelas distribuidoras dos estúdios Warner Bross, Columbia Pictures e Metro-Goldwyn-Mayer. Desta forma, podia locar os rolos de filmes 16 milímetros e exibir em vários lugares com os projetores portáteis que adquiri. Quando voltei de Itapira, recebi a notícia do falecimento de Sampaio, dei os pêsames aos familiares e fui ao sepultamento.

 

Como sempre colaborei com o Jornal “A Comarca”, que estava sob a responsabilidade e propriedade do jornalista e grande amigo Arthur de Azevedo, resolvi publicar uma crônica pelo falecimento de Antônio Carlos de Abreu Sampaio, na edição de 25 de abril de 1976. Eu estava inspirado e escrevi com desenvoltura. Para finalizar a minha passagem pela Rádio Cultura, em 1981 me aposentei e acabei saindo de vez de lá, - com amargura - tenho que registrar. Deixei de herança o contrato de publicidade com a Casa Botelho, cujas comissões não recebi. Restou-me lamentar os prejuízos com a emissora e, pior, ver escapar de minhas mãos a menina de meus olhos, a Rádio Cultura de Mogi Mirim. Mas Deus existe e uma janela tinha se aberto para mim, lá atrás, e, para melhor entender, vamos voltar ao passado. Em 1955, recebi a visita de José Guerra, um dos sócios do Cine de Conchal. Por lá, as coisas não andavam bem e eu vislumbrei uma possibilidade positiva. Tomei meu carro, fui até lá e arrendei o prédio, usando algumas economias que possuía. Pelos contatos com os representantes das distribuidoras dos estúdios de cinema em São Paulo, resolvi montar uma boa programação. Com isso, o público retornou, levantei a renda e equilibrei a receita do meu mais novo negócio, o Cine Paratodos. Meu casamento estava uma verdadeira batalha e foi se deteriorando.  A vida conjugal naufragou. Minha mulher resolveu que o seu futuro estava em São Paulo e para lá se dirigiu, em companhia de minhas cunhadas alcoviteiras e meus preciosos filhos. Meu filho mais novo, Paulo, deixou-me escrito o novo endereço no bolso de um dos ternos que ficaram sobre o único móvel - uma cadeira - que Zulmira deixou em nossa casa e fui para lá para resgatar meus queridos. Encontrei o lugar, bati à porta e ela, quando atendeu, quase desmaiou. Meu filho Paulo sorriu e nunca me esqueci disso. O novo local de morada era horrível, mato por todos os lados. Zulmira me falou que estava feliz, que já havia arranjado escola para os meninos, com a ajuda das irmãs, que sempre vinham visitá-la. Eu não podia entender como ela poderia estar feliz ali, naquele lugar ermo. Pensei nos meus filhos e aceitei o convite deles para o almoço. Foi aí, no pior almoço de minha vida, que tive a certeza: Zulmira me queria fora da família. Voltei para Mogi Mirim, resgatei minhas roupas e meus Long Players que ela deixou jogados pelo chão, hospedei-me na pensão do José Mineiro, que possuía um excelente negócio de hospedaria no andar de cima do Bar ao Ponto, na esquina das ruas Ulhoa Cintra com a Conde de Parnaíba. Lá me instalei por três anos, com o conforto e a amizade da família do Mineiro. O tempo foi passando. Eu corria muito pelas estradas do circuito Itapira, Mogi Mirim, Conchal e Artur Nogueira, porque meus negócios de exibição de filmes exigiam cuidadoso acompanhamento para prosperar. Eu estava muito infeliz, mas com muita força para trabalhar e desenvolver novas ideias.

Foto – Prédio da Rádio Cultura de Mogi Mirim, na Rua Ulhoa Cintra, nº 842.