Eu estava longe da Rádio Cultura, realizando negociações e cobranças para os Irmãos Pedrosos e, de volta a Campinas, após ter mediado conversações de compra e venda de rádios em outras cidades e feito algumas cobranças para os meus amigos, apresentei-me na Rádio Brasil, onde me esperavam os Irmãos Pedrosos. Prestei-lhes as contas, fiz relatos sobre tudo e eles me indenizaram com a quantia de vinte e quatro mil cruzeiros, uma grande soma à época. Eu os agradeci, agradeci a Deus pela nova fase na minha vida e, ao sair, deparei-me com Antônio Carlos de Abreu Sampaio, que sabia que eu estaria no local, naquele dia e hora. Ele me olhou nos olhos e rogou: “- Preciso de você, meu amigo. Estou com problemas na nossa Rádio Cultura. Resolva a minha situação, Pintaca.” Eu senti o estômago embrulhar, estava angustiado e contrariado, mas disse-lhe: “O que você quer agora, Sampaio?”
“Você tem que voltar à emissora, que ainda é sua. Preciso de você.” Eu aproveitei o momento para dar um comando: “Ponha para fora aqueles três diabos que trabalham para você, suma com eles. Faça a rádio voltar àquela beleza, aceite arrendamento, se não tiver dinheiro. Só depois conversaremos. Preciso descansar, viajei muito.” Voltei para Mogi Mirim, consultei minha mulher e refletimos sobre o assunto. Zulmira não estava satisfeita com o meu trabalho em São Paulo e minhas longas viagens e fez-me provocações infundadas. Criou-se uma sombra negra em nosso casamento, que me deixou infeliz. Imaginei que minha volta à Rádio Cultura, período integral em Mogi Mirim, seria providencial e meu casamento estaria a salvo. No outro fim de semana, agendei reunião com Sampaio para resolver as coisas, afinal eu ainda era dono da Rádio Cultura. Acertei-me com ele e retomei a posse direta da Rádio. Meu primeiro ato foi organizar um baile-show e a imprensa teceu elogios sobre a minha volta. Nota da colunista: O leitor José Luiz Longatto pesquisou em “A PAULISTINHA” de setembro/outubro de 1952. Página nº 29, os escritos que reproduzo, ipsis litteris: “ORLANDO BRONZATTO DE VOLTA NA RÁDIO CULTURA DE MOGI-MIRIM”. Esta homenagem, caríssimos leitores, vem fora de seu devido lugar, que estaria melhor ajustada na página de Rádio em Foco. Entretanto, como quizéssemos oferecer-lhe maior destaque, como quizéssemos oferecer-lhe grande relevo em A PAULISTINHA, deixamo-la para uma página só, como esta. É em verdade uma homenagem que nos sai carinhosa e justa do coração, nós que amamos tanto esta querida terra de Mogi-Mirim e apreciamos deveras todos os passos que seu progresso apresenta. Como ninguém desconhece, há já dois anos que está funcionando em Mogi Mirim a sua ZYR-26, Rádio Cultura de Mogi Mirim, uma das promissoras estações com que conta a interlândia paulista. E desde o seu início, melhor, desde muito antes de sua fundação, ainda no tempo do Serviço de Alto-Falantes e da Rádio-Propaganda Vitória, a figura simples e alegre do popularíssimo Orlando Bronzatto desponta como expoente na magnífica constelação radiofônica da cidade. Orlando Bronzatto, convenhamos, é mesmo um abnegado das coisas do rádio, principalmente de sua Rádio Cultura. E, após algum tempo de ausência, motivada por assuntos de alçada particular, voltou há pouco para a nossa emissora. Cremos não precisar dizer nesse comentário simples, porém sincero, quanta satisfação faz por possuir nosso povo, esse bom povo de Mogi-Mirim, com o retorno do filho pródigo à sua casa. Ela é grande, ela é justiceira. Reflete-se bem no apôio a todas as suas realizações que expontaneamente oferece e que, em verdade, Orlando Bronzatto merece. Assim como merece as palavras com que agora o presenteamos. Porque, francamente caros leitores, quando falamos em Orlando Bronzatto, não vemos nele tão sòmente o popular Pintaca que muito preza aliás: vemos também uma das molas propulsoras do progresso de Mogi-Mirim, vemos o valor exponencial do setor radiofônico da cidade, vemos um homem que, igualmente, ama sem limites esta bendita terra de São José.” 