A Rádio Cultura cresceu mais e mais, mas só funcionava até as 18h15. A programação iniciava às 7h30 com Relógio Musical, passava por Mensagem Romântica de José Dini Ferreira, Comparações Musicais, Valsas e Boleros, Programa de Saúde Ferreira Júnior, Orquestra do Dia, O Cartaz do Dia, Repórter R-26, Esportes, Página das Américas, Audições - O Seu Programa, Almoçando com Música, Recordando Carnavais Passados, Boleros em Desfile, Rádio-novela “O Lobo do Mar”, Amável Ouvinte, Boulevard Músicas Francesas, Nostalgias Portenhas, Grande Jornal Falado Cultura, Hora do Ângelus, pelo Monsenhor Nardim e o Encerramento, às 18h15. A programação era de alto nível e, após esse horário, o Serviço de Alto-Falantes “Vitória” entrava em ação, até as 22 horas. Aos domingos à tarde, a emissora apresentava variadíssima programação com a Rádio-novela ao vivo, humorísticos, shows com artistas conhecidos e, finalmente, um sensacional programa de auditório, com farta distribuição de prêmios aos ouvintes e espectadores que lotavam os 600 lugares do recinto.
Eu era popular e comandava o espetáculo. Estava satisfeitíssimo. Mas algo terrível ocorreu. Certo dia, meu protetor, meu sócio e querido amigo Acésio veio até mim e disse: “-Há tempos não me sinto bem. O médico pediu que deixasse para trás todas as ocupações e preocupações. Não dá mais para viajar até aqui. Tenho que ficar no meu canto. Você pode ficar com minha parte?” Foi um baque para mim. Eu não tinha dinheiro para comprar a parte dele, não podia contar com a ajuda do meu pai, que foi contra essa minha empreitada, embora nunca tivesse me criticado em nada. Meu pai não conseguia mais trabalhar como construtor, pois sofreu forte dor ao carregar uma vigota, na reforma da casa do Giacomelli, no Mirante. Por isso, ia a Campinas submeter-se às aplicações, aos Raios-X e vivia no balcão do armazém, fazendo serviços mais leves. Eu não podia sair por aí pedindo ajuda: se me chamaram de louco quando fundei a emissora, agora chamar-me-iam de besta-quadrada. Pedi prazo, estava com a cabeça fervendo. Acésio disse que conhecia alguém que poderia se interessar pela parte, caso eu aceitasse. Tratava-se de bom radialista, um dos corretores de publicidade da Rádio Educadora de Campinas, empregado do Dória, e também responsável pela seção de impostos atrasados da Prefeitura de Campinas. “-Acho que sei quem é. Um senhor baixo, encorpado, ele é parente de alguém naquele serviço de alto-falantes no Largo, chamado de Rádio Janela?” “-Esse mesmo, Orlando. Ele sabe comercializar, mas não entende de programação. Pense bem.” Fiquei matutando, com medo de sofrer pressão para que eu vendesse a minha parte também. Eu transmitia a missa, diretamente da Igreja Matriz de São José, que era ministrada em latim pelo Monsenhor Nardim. Certa feita, ele me presenteou com uma Bíblia traduzida em português, na coluna ao lado e me ordenou: “-Faça as traduções simultâneas para os seus ouvintes.” E eu as fazia, de boa-vontade. Tenho este livro guardado até hoje, uma relíquia para mim. Num domingo de manhã, após a transmissão da missa das 7h30, direto da Igreja Matriz de São José, eu havia guardado o material e o levado ao estúdio, pois já era quase hora de apresentar o programa domingueiro, quando vi um senhor entrar. Atrás dele, uma senhora e crianças, uma delas, um garoto magricela, correndo daqui pra lá, em volta das cadeiras do auditório. Fernando era o seu nome. Pedi que a operadora de mesa prosseguisse com discos e jingles e fui receber a visita. “-Eu sou o Sampaio, de Campinas, amigo de Acésio. Esta é minha esposa e filhos.” Eu respondi: “-Acésio já mencionou sobre o senhor. Eu mesmo já o vi na Educadora, quando lá estive para aprender como se faz a contabilidade, as tábuas de controle de publicidade e os recibos. Tanto é que o sistema administrativo aqui é o mesmo, adequado para Mogi Mirim, cidade menor, comércio ainda esquivo, quando se fala em anunciar. Está difícil, mas vai melhorar.” Fernando propôs: “-Se eu for aceito, Orlando, você terá mais tempo para correr o comércio, você que é mogimiriano e tem muitas amizades por aí. O mais difícil já passou, que foi conseguir o prefixo. Agora, é incrementar a publicidade.” Pensei, pensei e pensei mais. Eu me sentia encurralado. 
Foto – Acésio Godoy Gomes, protetor, sócio e amigo de Pintaca.