Em Lins, houve uma das mais pesadas manobras até então executadas pela tropa e, ao final, retornamos ao quartel. Fomos a pé e voltamos andando. Não chegávamos nunca. Perdemo-nos, entramos em um sítio para tomar informação. O sitiante abriu a porta com cuidado, jamais havia visto tanta gente fardada e depois nos orientou corretamente.
Tínhamos ido pela estrada errada, em direção a Promissão. Voltamos, tomamos a estrada correta e entramos pela periferia de Lins. Para mostrar fibra, o Comandante ordenou que tocássemos os instrumentos, desde a entrada até o ginásio-alojamento. Cansados, entramos desfilando pela cidade, todos sujos, mal-ajambrados e famintos, mas tocando divinamente. Passamos pelo hotel onde estava hospedado o Comandante Danton Braga Benitez que, da sacada, viu a Companhia em frangalhos e indignou-se com o que viu. Como Deus é bom! O Tenente recebeu um pito do Comandante por nos explorar, tudo registrado em boletim de folha corrida. Ele ficou tão chateado que pediu licença de 15 dias para visitar a família em São Paulo. Foram concedidos dois dias de folga para nós, brilhantes pracinhas. Deus é muito mais que bom! Um belo dia estava eu de piquete à porta do Comando, quando o Major me chamou e disse: “-Recebi um pedido da Legião Brasileira de Assistência da cidade para que colaborássemos com ela. Podemos organizar uma festa. O que é que você haveria de sugerir?” Eu, todo orgulhoso por ter sido consultado, disse, com classe: “-Comandante, sugiro que façamos um show da mesma forma que em Tupã, lembra-se? Aproveitamos o cine daqui, que tem um grande palco. A tela servirá de cenário, fazemos as adequações e não precisaremos buscar o cenário de Mogi Mirim.” Ansioso, ele me perguntou: “-Quando pode começar?” “-No mesmo instante em que o senhor ordenar. Preciso escolher e ensaiar os elementos junto com as moças da Legião. Os ensaios serão à noite, no clube. Preciso de licença.” – aproveitei, pedi e ouvi em resposta: “-A partir de agora, está livre. Vou comunicar os oficiais.” Um dos Cabos, ao saber, olhou-me com desdém e disse: “-Você é um caso sério, Pintaca, já arrumou descanso de novo?” Ignorei-o imediata e profundamente. Escrevi um novo show, escolhi as músicas, as cenas cômicas e ensaiei com as moças da Legião. Quando tudo estava “um aço”, marcamos o dia da apresentação. Escolhemos o Cine Piratininga, o maior local que encontramos, duas mil poltronas no recinto. A imprensa local deu-nos força com a publicidade gratuita e divulgação do evento. Os meus colegas de farda se desdobraram com as moças e o show foi um sucesso. Na apoteose, fizemos uma demonstração de combate com a tela suspensa. Mostramos a cena de campo, trincheiras de papelão forrado com papel-pedra. Após o locutor dar um intróito de cena, explodiu um tiroteio violento, assustando a platéia. Tiros de fuzis, de metralhadoras e os gritos de guerra dos soldados. A platéia ficou impressionada! Desfraldada a Bandeira Nacional sobre a platéia, todos aplaudiram efusivamente, de pé. O locutor me apresentou como o Diretor do show e, emocionado, discursei à imensa assistência, todos os Oficiais do Batalhão me olhando. Aprovado o espetáculo, portanto. A imprensa teceu os maiores elogios aos organizadores do evento e a mim, dizendo que a cidade havia ficado perplexa com o glamour e a criatividade do exibido. Elogiou a disciplina e o entusiasmo de todos. O Comandante adquiriu vários exemplares para serem enviados ao Comando, em São Paulo. Ganhei outra licença para vir a Mogi Mirim. Foram quatro dias alegres e carinhosos. Propus à minha namorada, aquela mesma que minha família desaprovava: - Quer casar comigo, Zulmira? Lins, 16.12.43 – Espetáculo “Duque de Norfolk”, personagem de Pintaca, ao centro, com farda escura e capacete. Observem os cinco panos do cenário, parte superior do palco.