Capítulo 30

Publicado em Quinta, 26 Junho 2008 15:17
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O Tenente Nelson, da 7ª Companhia, mandou me chamar: “-Ó 2443, tenho uma boa notícia para você. Tem visto a sua família?” “-Não, só por cartas. Penso em minha mãe, a Páscoa está chegando, queria dar uma chegada a Mogi Mirim. Minha mãe me mandou parte do dinheiro que recebo nos Correios.” Ele perguntou: “-Você entende de telégrafos?” Respondi, animado: “-Sou telegrafista e entendo de rádio também.” O Tenente disse: “-Mas por que não falou isso antes? O Comando está em busca de um telegrafista para ajudar o titular. Isso dá um dinheirinho. Aguarde aí, que vou ver isso.”

 

Tenente Nelson saiu e foi para a sala do Comando. Eu o acompanhei com os olhos, fiquei prestando atenção. Ele me deu sinal com a mão, para que eu fosse até lá e determinou: “-Você terá mais essa responsabilidade aqui em Tupã. Ó 2443, como prêmio da organização da Banda, o Comando lhe concederá oito dias de folga para você viajar, mas vai fardado e volta fardado. Não se esqueça da credencial.” Quase explodi de alegria. Iria rever minha família e minha namorada de Itapira, que deixei quando fui convocado, sem esperanças de revê-la. Comuniquei aos soldados meus amigos mogimirianos e itapirenses, pedi que não telefonassem para Mogi Mirim, queria fazer uma surpresa a todos. Cada um dos amigos escreveu uma carta para que eu entregasse às suas famílias e embarquei. Saí de Tupã às 16 horas, cheguei a Bauru à noite, viajei a noite toda e avistei Campinas à tarde. O trem parou em todas as estações, mesmo as das cidades menores. Cheguei a Mogi Mirim às 19 horas e, ao desembarcar na Estação, já ouvi: “-Olhem, é o Pintaca!”. Aproximei-me deles para cumprimentá-los e saí para a rua. Ao invés de subir a Rua da Estação (Rua Conde de Parnaíba) e descer a Rua João Teodoro, resolvi acompanhar a linha do trem até o pontilhão da Mogiana, no Mirante, e subi até o armazém de meus pais. Cheguei e parei à soleira da porta, olhando as pessoas tão queridas. Uma delas me viu e gritou: “-Vitalina, venha ver quem está aqui!” Fizeram muita festa, todos me abraçaram, minha mãe chorou, minhas irmãs me rodearam, tive uma recepção que nunca vira antes. Eu, cansado e suado, louco por um banho, respondi calmamente às mil e uma perguntas. Após isso, tirei a pesada farda, banhei-me e vesti uma roupa confortável. Que felicidade! Tinha três dias para encaminhar as cartas de meus amigos, esperar que escrevessem as respostas e rever todos os amigos. Senti-me infeliz ao saber que aquela namorada de Itapira, pensando que eu não voltaria mais, resolveu namorar um médico de Itapira e acabou por se casar com ele. De minha parte, reatei com uma antiga namorada de Mogi, que minha família rejeitava. Não dei muita importância a isso, pois a minha expectativa estava voltada para a profissão: eu buscava a integração em um dos escalões da FEB.

Tupã, 1942 – Cabo Pintaca à máquina de escrever, responsável pelo boletim diário, na Casa das Ordens da 7ª companhia do 3º Batalhão do 5º Regimento.