Capítulo 27

Publicado em Sábado, 07 Junho 2008 14:23
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No jantar, recebemos a comida dos caldeirões, feita pelos cozinheiros do quartel. À noite, permanecemos no comboio, dois em cada banco, dormimos sentados, pois atravessávamos uma zona perigosa, conforme instrução do oficial. Avançamos noite adentro. Por mais que procurássemos ver pelos raros pontos de luz das cidades pelas quais passávamos, não conseguimos identificar a posição, o nosso destino. Ao amanhecer, o comboio parou numa pequena estação, em linha paralela à normal, sem casas por perto, e veio a instrução: “-Desembarquem, sem sair do espaço do trem. Vão receber alimento. Banheiro, usem o mato anexo à linha.”

 

Bem, foi o que fizemos e aquele terreno restou queimado. Até hoje não deve nascer gramínea! Viajamos por mais cinco horas. Paramos em outra estação e o procedimento se repetiu. Seguimos viagem durante outra noite e, ao amanhecer, conseguimos vislumbrar umas casinhas e lemos o nome da estação em que estávamos chegando: Tupã. Fomos alojados em grandes barracões, antes silos de café. O “dono” da cidade era agricultor, tinha um grande pomar, tratava-se do ricaço pernambucano Souza Leão.  Estava formado o 3º Batalhão do 5º Regimento de Infantaria de Lorena, com centenas de novos pracinhas, que seriam treinados para os batalhões expedicionários que estavam seguindo para a Itália. Nomeei minha mãe procuradora para receber meus vencimentos dos Correios, enquanto eu estava fora. No dia seguinte, escrevi a ela uma carta, contando onde estava vivendo e orientando-a para qual endereço deveria encaminhar a correspondência. Nos treinamentos, vimos bem: tudo o que aprendemos no Tiro de Guerra era apenas um ensaio. Vieram as primeiras marchas forçadas de até quarenta quilômetros, pelas fazendas adentro. Arranchamos na beira do Rio do Peixe por onde passava o tronco oeste da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, dois soldados em cada barraca, sentinelas a postos. A região era perigosa, com muitas famílias de descendência japonesa. O momento exigia zelo e estratégia e estávamos prontos a agir.

Igreja Matriz de Tupã, ainda sem o jardim. Foto de 1942. Saibam que a cidade (grafada Tupan) foi fundada em 1930.

Avenida dos Tamoios, Tupã. Pintaca é o segundo homem fardado.